Lista de leitura – dezembro e janeiro

Não, eu não li todos os livros da minha lista para outubro e novembro. Para quem está com preguiça de clicar, os livros que eu tinha planejado ler nesses últimos dois meses eram: As Mentiras de Locke Lamora, The Young Elites, The Mirror Empire, Gardens of the Moon e A Canção do Sangue. Consegui terminar As Mentiras de Locke LamoraThe Young Elites A Canção do Sangue e, em compensação, li todos os cinco livros de Percy Jackson e mais dois de Os Heróis do Olimpo, que não estavam na programação, mas acabaram acontecendo. Ah, e também li duas das últimas edições da Revista Trasgo. Resultado final: dez livros livros + duas revistas.

Levando em conta que até agora li 32 livros em 2014, acho que esses foram dois meses bem produtivos. Mas vamos ao que interessa.

Há um problema bem chatinho para as minhas leituras de dezembro e janeiro: eu não tenho mais nenhum livro físico não lido comigo (well, tenho Anjos da Morte Os Doze, mas  aí eu teria que reler A Batalha do ApocalipseHerdeiros de Atlântida A Passagem, e estou sem saco para eles no momento). Felizmente (ou não) estou disposta a torrar algum dinheiro em livros em inglês, já que não tem nada traduzido que eu queira ler no momento. E os livros que pretendo comprar são:

  • The Goblin Emperor, Katherine Addison.

O mais novo e meio-goblin filho do Imperador tem vivido sua vida inteira em exílio, distante da Corte Imperial  e da intriga mortal que a permeia. Mas quando seu pai e três irmãos na linha de sucessão do trono são mortos em um “acidente”, ele não tem outra escolha que não tomar seu lugar como o único herdeiro legítimo sobrevivente.

Completamente despreparado na arte da política da corte, ele está sem amigos ou conselheiros, e tem total conhecimento de que quem quer que tenha assassinado seus pais e irmãos poderia tentar tirar sua vida a qualquer momento.

Cercado por bajuladores ansiosos para conseguir favores com o novo e ingênuo imperador, e oprimido pelos fardos de sua nova vida, ele não pode confiar em ninguém. Em meio ao turbilhão de tramas para depô-lo, ofertas de casamentos arranjados e o espectro de conspiradores desconhecidos que se escondem nas sombras, ele deve se ajustar rapidamente à vida como o Imperador Goblin. Todo esse tempo ele se encontra sozinho, e tentando encontrar até mesmo um único amigo … e esperando a possibilidade de romance, mas também vigilante contra os inimigos invisíveis que o ameaçam, para não perder seu trono – ou sua vida.

Passei por esse livro batido na primeira vez em que o vi no Goodreads, e o motivo é bem simples: o goblin no título. Pode culpar O Senhor dos Anéis, mas até hoje evito goblins, orcs e similares como protagonistas de livros porque tenho a ideia fixada (e errônea, aparentemente) de que essas raças são “do mal” e fim. Mas hoje o Fantasy-Faction postou uma resenha de The Goblin Emperor e a chamada dizia basicamente, “um livro de fantasia que não depende de violência para contar sua história”, o que quer dizer que cliquei no link na velocidade da luz. Além de uma resenha que falava muito bem da obra, encontrei também um trecho de uma entrevista que o site thebooksmugglers.com fez com a autora, Katherine Addison, em que os entrevistadores perguntam a ela se The Goblin Emperor era uma resposta ao subgênero Grimdark, já que Maia, o protagonista, é, bem, uma pessoa boa (chocante, eu sei). E a resposta dela foi:

“Eu queria escrever uma história (que refletisse minhas próprias crenças éticas, sobre as quais eu me torno mais feroz na medida em que vou envelhecendo) na qual compaixão significasse força ao invés de fraqueza. Grimdark é, de certo modo, outra iteração do byronismo, e tem a mesma falha de se tornar auto-congratulatória sobre sua escuridão, pessimismo e cinismo. Depois de um tempo – e digo isso como uma praticamente de Grimdark – eu cansei disso. Foi um alívio escrever algo que não pensasse dessa forma, um alívio escrever um mundo que não funciona desse jeito. Grimdark não é a única cor.”

E é nesse momento em que eu ergo as mãos pro céu e digo para mim mesma, amém, senhor.

Nem mesmo a possibilidade de um romance me assustou. Aliás, já mencionei que tem elfos?? Não?? Pois é, tem.

Also, 4.17 de nota no Goodreads, yo.

  • The Steel Remains (A Land Fit for Heroes #01), Richard K. Morgan.

Um lorde das trevas vai se erguer. Essa é a profecia que segue Ringil Eskiath – ou Gil – um mercenário experiente e um herói de guerra de uma única vez cujo cinismo é superado apenas pela velocidade da sua espada. Gil é distante de sua família aristocrática, mas quando sua mãe pede sua ajuda para libertar uma prima vendida como escrava, Gil sai para localizá-la. Mas logo se torna evidente de que há mais em jogo do que o destino de uma jovem mulher. Feitiçarias sombrias estão despertando na terra. Alguns falam em sussurros do retorno dos Aldrain, uma raça amplamente temida, demônios cruéis, mas bonitos. Agora Gil e dois velhos companheiros são tudo que se interpõem no caminho de uma profecia cuja realização afogará o mundo inteiro em sangue. Mas com heróis como estes, a cura pode se mostrar pior do que a doença.

Em uma situação normal, eu correria na direção oposta desse livro ao ler “mercenário” e “cinismo é superado apenas pela velocidade de sua espada” e voltaria, não muito convencida, ao ler “retorno dos Aldrain, uma raça amplamente temida” e “uma profecia cuja realização afogará o mundo inteiro em sangue”. “Mas com heróis como estes” provavelmente acabaria me fazendo desistir de vez, porém, e esse seria o fim da minha relação com The Steel Remains, mas, well, essa é a única fantasia grimdark que eu conheço que tem um protagonista gay (sim, ele é gay e a guria escrava da sinopse aparentemente não é o par romântico) e o autor não tem medo de se declarar feminista, então, é, vou acabar dando uma chance a esse livro. A nota no Goodreads não é tão boa (3.68), mas né, a esperança é a última que morre.

Enfim. Oremos.

  • Dragonflight (Dragonriders of Pern #01), Anne McCaffrey.

Como pode uma garota salvar todo o mundo?

Para os nobres que vivem em Benden Weyr, Lessa não é nada mas uma esfarrapda garota de cozinha. Durante a maior parte de sua vida, ela sobreviveu servindo aqueles que traíram seu pai e roubaram suas terras. Agora chegou a hora de Lessa deixar cair seu disfarce – e tomar de volta aquilo que é seu por direito.

Mas tudo muda quando ela encontra uma rainha dragão. O vínculo que elas compartilham será profundo e durará para sempre. Isso irá protegê-las quando, pela primeira vez em séculos, o mundo de Lessa é ameçado pelo Thread, uma substância maligna que caí como chuva e destrói tudo que toca. Dragões e seus Cavaleiros uma vez protegeram o planeta do Thread, mas muitos poucos existem atualmente. Agora a valente Lessa deve arriscar sua vida, e a vida de seu amado dragão, para salvar seu lindo mundo…

Venho querendo ler essa série desde 1500 a.C., desde que a vi listada como uma das obras de que Eragon roubou coisa (vínculo entre dragão e cavaleiro, etc, etc, com Dragonflight tendo sido publicado em 1968 e Eragon em 2002/2003 e coisa e tal), mas a falta coragem me impediu de pegar o primeiro livro pra ler. Mas Dragonflight irá ser adaptado para os cinemas, tem nota 4.07 no Goodreads, e oho, protagonista mulher + dragão fêmea + escrito por uma mulher = vitória!

Isso porque Dragonflight foi publicado há mais de quarenta anos. E depois perguntam porque as fantasias atuais me enchem tanto o saco. Well.

  • The Way of Kings (The Stormlight Archive #01), Brandon Sanderson.

Sem sinopse porque sinceramente, ela é longa demais para que eu a traduza com o pouco de coragem que tenho no momento.

 

 

 

 

 

 

Esse livro vai ser a última chance que darei a Brandon Sanderson. Já li Elantris Mistborn, e nenhum dos dois me convenceu de verdade. Tenho até uma ideia do porquê passo tão 😐 pelos livros desse cara, mas vou deixar para expô-la na resenha de The Way of Kings, se ela vier a ser verdade. Mas falam tão bem desse livro que se ele for ruim eu desisto da vida. O problema será eu de fato, porque sinceramente, não faz sentido eu ser a única não afetada por nada que Sanderson escreve.

  • City of Stairs, Robert Jackson Bennett.

Anos atrás, a cidade de Bulikov exercia os poderes dos deuses para conquistar o mundo. Mas depois que seus protetores divinos foram misteriosamente assassinados, o conquistador se tornou o conquistado; a orgulhosa história da cidade foi apagada e censurada, o progresso foi deixado para trás, e Bulikov é agora apenas mais um posto avançado colonial de novo poder geopolítico do mundo. Nessa mofada e retrógrada cidade pisa Shara Divani. Oficialmente, a mulher calma é apenas um outro diplomata humilde enviado pelos opressores de Bulikov. Extra-oficialmente, Shara é um dos mais talentosos mestres de espiões de seu país – enviada para investigar o assassinato brutal de um historiador aparentemente inofensivo. À medida que Shara persegue o mistério através da geografia física e política da cidade em constante em mudança, ela começa a suspeitar que os seres que antes protegiam Bulikov podem não estar tão mortos quanto parecem – e que suas próprias habilidades podem ser tocadas pelo divino também.

Com uma boa nota no Goodreads (4.23) e uma fama cada vez maior, City of Stairs está na minha lista de livros a serem lidos há um bom tempo, e como é um volume único pensei em adiantá-lo logo para ver do que realmente essa história se trata. A ideia de cidade com deuses/com seres que parecem deuses me lembrou um tico Elantris, mas o resto parece ser bem diferente (e a protagonista é uma mulher, né?).

Vou comprar alguns desses livros essa semana (porque né, $$$$$$). O problema (é, outro): livros importados podem demorar semanas para chegar aqui no Brasil. Como comentei mais cedo, decidi reler os livros de Eragon e ao mesmo tempo usar essa série para fazer uma espécie de guia sobre como não se escrever um livro de fantasia. Pretendo começar o primeiro volume, portanto, hoje mesmo.

Não comprarei The Mirror Empire porque ô livro caro, hein? Deixa pra depois. E não estou com muito saco para Gardens of the Moon, so.

De qualquer forma, e vocês, o que pretendem ler em dezembro e janeiro?

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Rants literários: o problema com a fantasia grimdark

Sim, eu estou fazendo um rant sobre fantasia grimdark. Aposto que ninguém está muito surpreso, já que estou constantemente expressando o quanto odeio a fantasia grimdark em resenhas por aí. Ontem, por acaso, enquanto matava tempo na hora em que devia estar estudando para minha prova na segunda, acabei em um post que falava justamente sobre a fantasia grimdark e sobre qual, na opinião da autora, era seu problema. Ler esse post foi como finalmente enxergar após ter ficado muito tempo cega. Veja bem, eu já sabia que odiava fantasia grimdark, mas sempre atribuí esse desprezo todo à forma com que vários livros do gênero usam a violência apenas para chocar. Agora, no entanto, percebo que odeio esse tipo de obra por vários outros motivos que até então eu sentia que existia, mas não sabia exatamente quais eram.

Para quem não sabe, a fantasia grimdark é um subgênero da fantasia que abrange livros mais pesados, livros que são famosos por serem mais “realistas”, sendo assim considerados por possuírem sexo, violência, drogas, xingamentos, sujeira, morte e personagens cinzentos em suas histórias. Gostaria de deixar claro que não acho que a existência desses elementos seja um problema (personagens cinzentos, aliás, são uma dádiva para o gênero), mas sim o que eles geralmente trazem. E o que eles trazem é justamente o motivo de eu odiar tanto esse subgênero, motivo esse que é estupidamente simples, tão simples que eu não faço ideia do porquê não o notei antes: a fantasia grimdark não é escrita para mim.

Na verdade, a fantasia grimdark não é escrita para você se for ou mulher ou não-branco ou não-heterossexual. Fantasia grimdark é escrita para homens heterossexuais brancos. Simples assim.

Bem, fantasia como um todo sempre foi escrita por homens heterossexuais brancos para homens heterossexuais brancos, mas isso, na minha opinião, se deve ao fato de que até pouco tempo atrás era visto como normal colocar a mulher como um ser inferior nas histórias, ou ignorar totalmente a existência de não-brancos e não-heterossexuais, porque, bem, mulheres eram vistas como inferiores na sociedade, e não-brancos e não-heterossexuais eram completamente invisíveis (e muitas vezes ainda são). Fantasia (e ficção científica também) nasceu sendo escrita por homens heterossexuais brancos para homens heterossexuais brancos porque antigamente eles eram vistos como os únicos que importavam. E nem preciso dizer que hoje em dia as coisas não são mais assim, certo? Foi preciso muita luta e muito murro em ponta de faca para fazer o público geral entender que sim, mulheres, não-brancos e não-heterossexuais precisam e merecem ser representados em tudo, não só na literatura. As coisas finalmente começaram a mudar. Sim, ainda aos poucos, mais para as mulheres (geralmente brancas) do que para não-brancos e não heterossexuais, mas as coisas estavam mudando. Havíamos enfim saído da inércia.

Mas aí a fantasia grimdark ganhou força e de uma hora para outra estávamos mais uma vez de volta à estaca zero. E é por isso que eu a odeio tanto.

Como exatamente a fantasia grimdark nos levou de volta à estaca zero? é o que você pode estar se perguntando, e a resposta é simples. A fantasia grimdark se caracteriza por sua violência, sexo, drogas, xingamentos, sujeira, morte e personagens cinzentos, certo? E, como eu disse, esses elementos não são o problema. O problema é que, na fantasia grimdark, (na maior parte das vezes) a violência significa violência contra a mulher/não-branco/não-heterossexual, sexo significa estupro, xingamentos significa xingamentos contra a mulher/não-branco/não-heterossexual, sujeira, drogas e morte estão presentes apenas para chocar e personagens cinzentos significam apenas personagens amargos e/ou raivosos. Ou seja, esses elementos trazem basicamente sexismo, homofobia, racismo e escrita pobre, e ao invés de colocar a mulher como ser inferior e ignorar não-brancos e não-heterossexuais por influência da sociedade sexista, homofóbica e racista da época, agora o fazemos porque isso é, supostamente, ser realista.

Mas isso é ser realista onde?

Segundo escritores e fãs da fantasia grimdark, na idade média. Mas, ao contrário do que eles pensam, havia sim não-brancos na idade média (prestem atenção na aula de história de vocês, fazendo o favor) e mulheres eram vistas como seres inferiores por culpa da nossa querida Igreja Católica. Ser não-heterossexual era um pecado terrível também por culpa da já citada Igreja Católica. Mas nas fantasias grimdak não existe uma Igreja Católica. Na verdade, nos livros do tipo que eu li, quase nunca há a presença forte de qualquer tipo de igreja.

Ou seja, esses livros são sexistas, racistas e homofóbicos sem ter uma explicação plausível. Esses autores estão tomando emprestado coisas da nossa idade medieval para colocar na história deles sem pensar duas vezes em qualquer tipo de explicação ou justificativa, sem refletir sobre causa e consequência, apenas porque ser sexista, racista e homofóbico é supostamente “realista”. Ironicamente, o único livro grimdark que eu conheço com uma presença forte da igreja é o que estou lendo agora, A Canção do Sangue, e até o momento as (poucas) mulheres apresentadas foram bem retratadas. Em conclusão: o já batido argumento de “as coisas eram assim na idade média, então nós estamos apenas sendo realistas” não é válido. E, pelo amor de todos os deuses, existentes ou não, por que diabos sempre querem basear tudo na idade média? Eu só consigo ver um motivo: preguiça e zona de conforto. Sem mais.

E é por isso que fantasia grimdark não é escrita para mim. Eu, como mulher e pessoa provavelmente não-heterossexual, não tenho espaço algum em histórias desse tipo. Quando vou contra meu sexto sentido e pego uma fantasia grimdark para ler, eu já a começo sabendo que as mulheres ali provavelmente só servirão para serem estupradas, objetificadas e deixadas de lado, e sei também que terei que aguentar homens (brancos e heterossexuais em 99% das vezes) fazendo piadinhas obscenas e degradantes sobre mulheres o tempo todo. E isso enche o saco. Já cheguei ao ponto de me sentir fisicamente cansada ao ler um livro de fantasia grimdark de tão frustrada que já estou com o subgênero a essa altura do campeonato.

E o mais frustrante ainda é saber que esse tipo de coisa continua acontecendo não por causa de uma coisa difícil de se mudar como a visão de uma sociedade de certa época, mas sim porque esses autores (em sua esmagadora maioria homens brancos heterossexuais) decidiram que é “realista” ser homofóbico, racista e sexista. Mas, surpresa!, não é.

Outro argumento que já vi um autor de fantasia grimdark usar para defender obras assim é que “às vezes o mundo é uma merda mesmo”, e desculpe, mas é uma merda para quem? Para seu protagonista homem branco e heterossexual que escolheu ser um mercenário sanguinário e acabou perdendo a família? Sério? Porque pra mim ele é uma merda mesmo para as mulheres que seu mercenário sanguinário e colegas estupraram, para os não-brancos que na maioria das vezes sequer existem, e que quando existem são tratados como selvagens estúpidos, e também para os não-heterossexuais, que estão em um estado ainda pior de não existência. E quando existem, principalmente se forem mulheres lésbicas, é quase certeza de que acabarão estuprados e mortos.

Ou seja, o mundo é uma grande merda para todo mundo, menos para o protagonista branco heterossexual, que vive em estado de angst por causa muitos menores. Por que será, me pergunto, que isso não me surpreende nem um pouco?

E é por isso que acredito que a fantasia grimdark nos levou de volta à estaca zero. Não mais temos sexismo, racismo e homofobia em livros de fantasia por questões externas, mas sim porque se tornou regra. E quem não obedece essa regra é imediatamente colocado como inferior por ser “irreal”. Já perdi a conta de quantas vezes vi um fã de fantasia grimdark zombando dos outros tipos de fantasia porque, na opinião deles, esses outros tipos de fantasia não são “sérios”. São fracos, são livros para crianças. Fortes mesmo, sérios mesmo, são aqueles que leem fantasia grimdark, porque ela mostra o mundo como ele realmente é, e isso obviamente inclui racismo, sexismo e homofobia sem causa ou explicação. Bônus se tiver escrita pobre, já que agora todo personagem é um babaca, e aqueles que não são acabam vistos como idiotas.

Sinceramente? Me poupem. Sério. Bleh.

Mas Lynx, você pode estar se perguntando, por que esses autores querem tanto continuar considerando racismo, homofobia e sexismo como realismo?

Na minha opinião, sendo bem sincera: porque não os atinge e nem à maioria dos seus personagens principais. Veja essa lista aqui, a lista de grimdarks segundo o Goodreads. Veja quantos tem protagonistas femininas. Ou não-brancos, ou não-heterossexuais. Praticamente nenhum, né? É por isso que racismo, homofobia e sexismo vão continuar como a norma na fantasia atual, porque racismo, homofobia e sexismo garantem que o homem heterossexual branco vai continuar como protagonista. E obviamente é isso que homens heterossexuais brancos querem.

E gostaria de lembrar que a maioria esmagadora de escritores de fantasia, grimdark ou não, é formada por homens brancos heterossexuais. Interessante, né? Ha.

Não direi mais nada. Acho que nem preciso. A verdade está aí para quem quiser ver.

(texto que li ontem e me motivou a fazer esse post – em inglês).

Rants literários: a substituição da construção de personagem por seu papel na história

Uma das coisas que eu mais odeio ao ler qualquer livro é ver a construção – e mais tarde o desenvolvimento – de um personagem substituídos por seu papel na história. É algo que acontece com tanta frequência que muitas pessoas sequer notam que há alguma coisa de errado, o que, é claro, abre mais espaço para que essa substituição continue sendo feita. E, acredite em mim, isso é sim uma perda horrível para a literatura.

Mas o que, exatamente, é essa substituição da construção de personagem por seu papel na história?

É algo até bem simples e bem óbvio, e que começa assim que lemos a sinopse de um livro. Na sinopse, a depender do gênero, nos é informado quem são os protagonistas, quem são os inimigos, quem são os pares românticos, quem são seus amigos, etc, e isso tudo nos leva a ter um pré-conceito de cada um desses personagens. É como se os estivéssemos encaixando em seus lugares, como uma peça de quebra-cabeças, e assim acabamos por definir seus papéis. Acabamos, portanto, já gostando ou desgostando desses personagens antes mesmo de conhecê-los.

É claro que não há problema algum nisso; o problema só começa quando esse pré-conceito, essa opinião formada antes do conhecer, é usada para substituir a construção e desenvolvimento de um personagem. O escritor presume que já estamos inclinados a gostar do personagem Z e a odiar o Y (e geralmente estamos mesmo) e não faz muito esforço para realmente tornar o personagem Z alguém interessante o bastante para se gostar ou para transformar o personagem Y em um vilão de verdade. Isso acontece principalmente (mas não exclusivamente, vale frisar) em livros YA voltados para garotas; desde a página 1 já sabemos que a protagonista, nosso maior meio de se conectar à história, vai se apaixonar pelo garoto mencionado na sinopse como o interesse romântico, então já nos acostumamos com a ideia de gostar dele. Ele pode acabar sendo um stalker agressivo e controlador (como já discutido no primeiro post dos rants), mas não importa, porque ele é o interesse romântico e provavelmente é lindo de morrer, então, sim, gostaremos dele, mas gostaremos pelo papel que ele tem na história, e não por ele próprio.

Como eu já disse, isso acontece em todos os gêneros, com todos os tipos de personagem. Somos condicionados a simpatizar com o melhor amigo do protagonista, a odiar o vilão/antagonista, a gostar do interesse romântico (e assim por diante) o tempo todo, em todo livro que lemos. O próprio protagonista acaba no meio dessa confusão também, e os autores usam os meios mais simplistas de fazer com que o leitor se identifique com o personagem principal da história; ele é sempre tímido ou quieto, com poucos (mas ótimos) amigos, e sempre gosta de ler. Por quê? Simples: essas são as características mais comuns em leitores do mundo todo. Tendemos a ser mais introvertidos e muitas vezes esse é o motivo de termos começado a ler tanto. Fazer um personagem assim é o jeito mais barato e preguiçoso de (tentar) fazer com que o leitor se identifique com a história. Ou seja, lazy writing.

Não estou dizendo que é um crime criar um personagem principal tímido ou quieto que goste de ler; o problema é criar um personagem definido apenas por essas características, sem ter, portanto, profundidade alguma. Personagens assim são portas de entrada para o reino Mary Sue, e você obviamente não quer isso na sua história, certo? Certo.

Essa predisposição que temos antes de iniciar qualquer livro (e também durante a leitura) faz com que perdoemos atos cometidos pelos mocinhos quando na verdade jamais o faríamos se eles tivessem sido feitos pelos “caras maus”. Sim, fulano pode ter feito algo horrível, mas ele é o protagonista, Cicrano foi um babaca, mas ele está do “lado do bem”, Beltrano pisou na bola, mas ele é o melhor amigo do personagem principal… E assim vamos ignorando os próprios personagens e valorizando apenas o papel deles na história.

Evitar que isso aconteça é bem simples: é só se esquecer dos papéis que os personagens ocupam e julgá-los por eles mesmo. Para escrever, é claro, a coisa se torna um pouco mais complicada, mas é só parar de fazer personagens que se encaixem nesses papéis e começar a ajustar os papéis após ter construído o personagem. Se isso não for feito acabaremos com mais e mais personagens que são praticamente iguais por serem definidos apenas por esses papéis, com apenas uma ou outra característica escolhida apenas para tentar fazê-los parecer mais originais. Todos, é claro, sem profundidade alguma.

E como bem sabemos, poucas ou nenhuma história sobrevive com personagens ruins, mas estamos muito acostumados a ler (e gostar de) personagens ruins, então qualquer história que se diferencie, que realmente invista em construir personagens bons e bem desenvolvidos, acabará se destacando das demais. Bons personagens são, hoje em dia, a arma secreta de qualquer escritor – é uma pena que tão poucos saibam usá-la de fato.

Rants literários: o (mau) comportamento dos autores na era da internet

OBS: Os links desse post são todos para artigos em inglês. Infelizmente, não tem muito sobre o assunto em português.

OBS2: O rant de hoje não é bem um rant… É bem mais “leve” do que os outros no quesito de eu expressar minhas opiniões (embora elas ainda estejam aí), mas o tópico é bem importante para quem pertence ao meio literário.

OBS3: Post gigante. Oops.

Antigamente ser um escritor publicado era bem mais fácil. Você só tinha que escrever o livro, revisar algumas vezes, reescrever, achar uma editora interessada e então publicar sua obra. Depois de ver sua criação impressa e nas livrarias, o escritor publicado do século passado talvez fosse falar dela para os amigos, vizinhos e para família, e também no seu local de trabalho. Sim, fazer tudo isso dá um trabalho danado mesmo, mas era só. Não havia mais o que fazer. Hoje, feliz ou infelizmente, as coisas não são mais assim; o autor contemporâneo tem que, também, estar na internet.

“Estar na internet” não é bem a melhor escolha de palavras, para falar a verdade. Talvez “criar uma presença na internet” seja mais aplicável ao que acontece hoje em dia. Com muito mais escritores do que jamais tivemos em qualquer outro período da história, atualmente só se destaca aquele que der muita sorte ou que tenha muita determinação para conquistar seu espaço. E para conquistar o seu espaço, o autor precisar estar na internet o tempo todo, mas, mais uma vez feliz ou infelizmente, a internet também abriu espaço para um feedback maior. Com a existência de sites como o Skoob aqui no Brasil, e o GoodReads e o Leafmarks lá fora, qualquer autor pode dar uma espiada no que estão falando sobre seu livro a qualquer instante. Isso pode, claro, ser maravilhoso (imagina só a alegria de ver dezenas de resenhistas dando cinco estrelas para sua obra?), mas também pode ser um desastre. Afinal, nem todo livro vai ser amado, e livros vistos como ruins pela maior parte do público são lançados a todo momento. O que acontece, então, quando um autor mais sensível lê resenhas com críticas mais duras e impiedosas sobre o livro que ele demorou anos para escrever e publicar?

Barraco, minha gente, é o que acontece. Sério.

Até alguns meses atrás eu vivia na inocência de achar que o máximo de ruim que poderia acontecer na relação autores-leitores era a óbvia atitude passiva-agressiva de alguns escritores brasileiros (“ah, mas tem muita gente que só fala mal de nossos livros porque estão com inveja!”). Há alguns meses atrás, porém, finalmente decidi criar uma conta no GoodReads, e meu mundo virou, do nada, de cabeça para baixo.

Antes de eu explicar exatamente o porquê, deixe-me explicar uma concepção básica que existe (ou que deveria existir) entre autores e leitores: é uma péssima ideia o autor comentar em alguma resenha – ainda mais se for negativa – e é uma ideia ainda pior citar algum resenhista no Twitter ou em qualquer blog que o autor tenha, mesmo que seja para explicar que não, não foi isso que eu quis passar na minha obra. Por que essa concepção existe? Simples: o escritor, por mais desconhecido que seja, sempre terá mais gente para defendê-lo do que o resenhista. É como uma quebra de braço, apenas que o autor tem sua mão apoiada por dez vezes mais pessoas do que o resenhista, que pode acabar se ferrando bonito em casos assim. Há também outro aspecto: desde que não esteja atacando o autor como pessoa, o resenhista tem todo o direito de dizer o que achar da obra, mesmo que escolha usar uma linguagem mais rude e até mesmo cruel. Principalmente em sites como o GoodReads e o Skoob, que foram feitos justamente para se compartilhar opiniões sobre livros lidos.

Esclarecido isso, podemos passar para o primeiro caso que fez eu começar a entender como as coisas realmente são no mercado de livros: o caso da agente literária de Kiera Cass, autora de A Seleção.

A coisa toda começou quando uma resenha de A Seleção feita por Wendy Darling no GoodReads recebeu tantos likes que acabou no topo de resenhas da página do livro. A agente da autora, Elana Roth, decidiu falar sobre isso no Twitter. Saca só:

(Elana Roth, ER): Maldição, o GoodReads realmente precisa de um sistema melhor de filtração e de algorítimos sobre o modo como o site mostra as resenhas e as avaliações por padrão. Tão horrível.

(Kiera Cass, KC, em resposta a ER): Eu acho que é por likes e é fácil dar like em coisas cruéis. Tanto faz.

(ER, em resposta a KC): Aquela cadela no topo está realmente me irritando. Ela reclama antes de ler, lê pouco e então reclama de novo. Qual o caso dela?

(ER, ainda em resposta a KC): Eu acho que preciso ir e dar like em todas as resenhas positivas.
(ER, ainda em resposta a KC): Acabei de ir lá em todas as resenhas com 4 ou 5 estrelas e dei like nelas. 
(ER, ainda em resposta a KC): Nós deveríamos pedir ajuda a @KalebNation. Aparentemente não tenho mais clientes no GoodReads para pedir, porém. Estranho.
(KC, em resposta a ER): É, eu não sei o que está acontecendo. Mas estou pensando em dar like em algumas eu mesma. Talvez eu peça discretamente a alguns amigos para fazer o mesmo também. Nós temos grandes amigos.
(KC, em resposta a ER): É, minha lista de amigos no GoodReads é limitada. Hmm.
(KC): Em outras notícias: 6.000+ adicionamentos no GoodReads. Eu ADORO vocês, pessoal!

Sim, isso aconteceu. E sim, isso aconteceu no Twitter, uma rede social totalmente aberta, onde todo mundo pode ver Kiera Cass e sua agente Elana Roth planejarem manipular a ordem em que as resenhas no GoodReads são dispostas. Com o bônus de a Roth ainda ter chamado Wendy Darling de cadela.

A coisa explodiu a partir do momento em que Wendy Darling descobriu o que tinha acontecido e compartilhou no GoodReads o print acima, junto com outro, que mostrava pessoas anônimas deixando comentários não tão amigáveis na resenha dela. Ela, Wendy, escreveu um post no seu blog explicando o que tinha acontecido e como isso a afetou, mas para resumir: Wendy passou a ser atacada diariamente por anônimos e por supostos amigos da autora (que depois, assim como Elana Roth, pediu desculpas), entre estes uma autora independente já mal-afamada por ter atacado leitores* que publicou o que, segundo ela, seria o nome verdadeiro de Wendy Darling, sua foto, seu e-mail e informações sobre o trabalho de seu marido. Isso, obviamente, gerou mais uma rodada de “trolls” mandando mensagens não tão simpáticas para ela. Vocês podem imaginar o nível da coisa.

Isso tudo aconteceu no início de 2012 e, pelo que eu vi, foi o maior “escândalo” (decididamente não o único, como vocês vão ver depois) do ano no meio literário. Muita gente escreveu sobre isso na época (como você pode ver no segundo post feito por Wendy Darling). Enfim, foi o caos na Terra.

Mas não foi o começo, e muito menos o fim, das confusões entre autores e leitores em 2012. Aliás, muita coisa aconteceu bem no início do ano, que ficou conhecido como Os Primeiros Dias no GoodReads. Resumindo:

  • Dia 1: Kira escreveu uma pré-resenha negativa do livro Tempest, de Julie Cross. Dan Krokos, amigo de Julie Cross, foi na resenha reclamar. Depois, ele levou isso tudo para o Twitter, onde criou a hashtag #goodreadsslogan para criticar as pessoas (leitores, hm) do GoodReads que compartilhavam suas opiniões em resenhas, porque obviamente todas essas pessoas estariam na verdade atacando os autores. Vários outros autores se juntaram a ele. O único lado bom dessa história foi que Julie Cross agiu muito bem, não atacou ninguém e disse, super de boa, que a resenha de Kira não estava atacando-a de modo algum. Duh. (leia mais sobre esse caso aqui).
  • Dia 2: Flannery escreveu uma resenha do livro Froi of the Exiles, de Melina Marchetta, dando 3 estrelas para a obra (não foi nem uma estrela, gente, foram três). Danielle Weiller (outra autora) comentou na resenha dizendo que a resenha estava “tirando coisas do contexto” e que o fato de Flannery ter dado 3 estrelas quando sua resenha (segundo Weiller) indicava que ela queria dar 1 era cruel. Uh. (Depois de um tempo Weiller deletou os comentários na resenha de Flannery, mas você pode ler a partir da mensagem 48 lá na resenha para ter uma ideia de como a coisa foi).
  • Dia 3: Steph Sinclair escreveu uma resenha do livro Carrier of the Mark de Leigh Fallon e depois de algum tempo recebeu um e-mail escrito por Fallon para outra pessoa que não Sinclair onde a autora a chamava de vaca e cadela, e ainda pedia aos seus amigos para darem um yes nas resenhas positivas de seu livro no Amazon. Fallon acabou pedindo desculpas e disse que tinha mandado aquele e-mail para dois amigos, mas todo mundo ficou meio desconfiado porque você obviamente precisa de mais de dois amigos para fazer as resenhas positivas subirem no Amazon e/ou GoodReads. Well. (leia mais sobre esse caso aqui).
  • Dia 4: Sophie escreveu uma resenha do livro Beautiful Disaster de Jamie McGuire. Fãs do livro a atacaram nos comentários. McGuire acaba então escrevendo um post em seu blog sobre isso, para depois apagar. McGuire vai também ao Twitter. Lembra da quebra de braço? Bem isso.

*A autora independente e mal-afamada que vazou as informações pessoais de Wendy Darling é Melissa Douthit, que acabou banida do GoodReads por criar 27 contas fantasmas para assediar resenhistas e dar like em resenhas positivas dos livros delas (e de seus amigos, provavelmente). Sweet.

Não, isso não foi tudo o que aconteceu em 2012. Muito mais aconteceu, na verdade. Mas chega de falar do passado; vamos falar de casos recentes, certo? Certo. Dois aconteceram bem recentemente.

Primeiro, o mais chocante. Em 26 de setembro, Paige Rolland publicou uma resenha das primeiras páginas de The World Rose, de Richard Brittain. Brittain já era famoso no Wattpad por ser um, hm, babaca. Vale mencionar que The World Rose foi publicado de modo independente. Enfim, dias após Rolland ter publicado sua resenha, ela foi atacada por Brittain (que mora em Londres) em seu local de trabalho (na Escócia!) com uma garrafa de vinho na cabeça, por trás. Ela foi hospitalizada, mas já prestou queixa e aparentemente Brittain vai acabar internado por problemas mentais.

Segundo, o que repercutiu mais. Kathleen Hale, autora de No one else can have you teve um artigo publicado no The Guardian onde ela relatou como perseguiu uma resenhista que deu apenas uma estrela para seu livro. No artigo, Hale conta como literalmente ficou de olho nas redes sociais de Blythe Harris após ter visto a resenha dela, como chegou a pedir o endereço de Harris a um blog que estava organizando um book tour de seu livro dizendo que ia lhe mandar um presente, como foi até a casa de Harris, como desistiu de bater na porta dela, como descobriu que Blythe Harris não é nome verdadeiro da mulher que escreveu a resenha de seu livro e como ligou para o trabalho dela para tentar conseguir mais informações. Hale meio que tenta justificar ter perseguido Blythe Harris com o fato de que Blythe Harris não existe, como se usar um nome diferente – e até uma idade diferente – para resenhar livros fosse um crime. Mas, surpresa!, não é.

(Se fosse eu seria presa, oops. Nunca cheguei a dizer ter uma idade diferente da minha real, embora já tenha omitido-a para ser levada a sério – comecei a participar de discussões em fóruns sobre livros com 13 anos quando todo mundo já estava ou terminando o ensino médio ou na faculdade ou trabalhando, então né -, mas acho que nunca cheguei a usar meu nome verdadeiro, e já mudei de nome várias e várias vezes.)

O artigo de Hale rendeu muito, e ainda está rendendo. Rendou uma hashtag no twitter (#HaleNo), um blog blackout (vários blogs grandes estão suspendendo suas atividades por uma/duas semanas em protesto), e vários posts, cartas e artigos em resposta ao publicado pelo The Guardian (exemplo). Em resumo, todo mundo está revoltado com o fato de que um jornal como o The Guardian achou que seria uma boa ideia publicar um artigo sobre uma autora stalker. E, para piorar, com o fato de que tem gente apoiando-a.

Há outros casos, é claro. Muitos, acontecendo quase o tempo todo. Alguns, porém, saem da esfera de relação entre autor-leitor e vão além, para a personalidade e os feitos dos autores longe de seus livros. Como o fato de que os filhos de Marion Zimmer Bradley, autora consagrada de As Brumas de Avalon que faleceu em 1999, disseram recentemente que a mãe abusava deles. Não foram poucos os posts sobre essa revelação (sério), que foi um choque. MZB é ainda hoje muito aclamada, muito famosa, e seus livros são adorados por muitos. Mas, depois dessa, saíram de modo permanente da minha lista de leitura.

Outro cujos livros estão praticamente excluídos da minha lista de leitura é Orson Scott Card, autor de Ender’s Game, filme que eu adorei e que me fez ficar saltitante de vontade de ler o livro no qual foi baseado. Mas Card é um homofóbico que vem lutando contra os direitos dos homossexuais há anos. E, feliz ou infelizmente, eu não conseguiria ler Ender’s Game, cuja mensagem, pelo que eu vi no filme, é justamente a de aceitar e entender o diferente, sabendo que o autor faz tudo menos isso. Acaba sendo hipocrisia demais para mim.

Separar o autor da obra é muito difícil, tanto em casos como o de Kathleen Hale, Kiera Cass/Elana Roth e Leigh Fallon quanto em casos como o de Orson Scott Card e Marion Zimmer Bradley. Eu, pessoalmente, não consigo. Talvez parte disso se deva ao fato de que eu sou (ou quero ser) escritora; jamais conseguiria me separar da histórias que quero escrever e, portanto, não consigo e nunca conseguirei abrir Ender’s Game e ler uma história magnífica sobre respeitar o diferente (com toda a parte legal de ser um livro de ficção científica) sabendo que tudo ali não passa de uma mensagem oca de um escritor hipócrita. Não sou apenas assim com livros; se descubro que certa banda é feita de babacas, não consigo mais ouvir as músicas, por exemplo. Estou até mesmo considerando largar de vez Shingeki no Kyojin, um anime que eu adoro, porque o autor disse que um dos personagens, Dot Pixis, foi inspirado em um general japonês que lutou em duas guerras (uma contra a Rússia, outra contra a China) para manter a Coreia sob domínio do Japão e que ele o respeitava pela vida frugal que esse general levava. O problema é que, sob o nome desse general, garotas coreanas foram estupradas e homens coreanos foram feitos de escudos humanos e objetos de tortura. Quando fãs coreanos do anime reclamaram sobre isso, ele disse que o que o Japão fez com a Coreia não pode ser comparado com o Holocausto porque a vida dos coreanos (e dos chineses) melhorou “graças” ao Japão, mesmo que essa “melhora” tenha significado a morte de centenas (ou milhares) e tenha abrigado uma tentativa de apagar a cultura coreana. Ou seja, o cara é um babaca. E por mais que SnK seja um dos melhores animes que eu já vi (e um dos mangás que eu mais quero ler), não dá pra mim. Não rola mesmo.

Sei que a maior parte das pessoas que me seguem aqui [no tumblr] é feita de escritores, então achei que esse seria um bom tópico para se discutir. Vocês conseguem separar o autor da obra? Leriam algum dos livros aqui citados mesmo sabendo que o/a autor/a fez o que fez? Ou continuariam lendo as histórias, isolando-as das pessoas que a escreveram? E como agiriam caso algum livro seu recebesse essas resenhas negativas?

É algo que se vale a pena pensar.

Rants literários: feminismo e machismo, misandria e misoginia e a representação de minorias na literatura

Sim, eu sei que hoje não é dia de rant literário, mas algo que aconteceu ontem acabou tornando esse post algo necessário o mais rápido possível. principalmente porque eu meio que não quero esquecer tudo que pensei nas últimas 24 horas. Sim, tenho uma memória de peixe para detalhes.

[Atenção: spoilers pequenos para O Nome do Vento O Temor do Sábio]

Tudo começou por causa da Denna.

Para quem não sabe, Denna é uma das personagens da série A Crônica do Matador do Rei, de Patrick Rothfuss e, como descobri ontem, não é lá uma personagem muito amada. Em um grupo de livros de fantasia do qual participo do facebook, um dos membros postou algo sobre não gostar dela e rapidamente várias outras pessoas que tinham lido os livros apareceram para concordar com essa opinião. Eu fui uma delas; a Denna é uma das poucas personagens de A Crônica do Matador do Rei que eu realmente não gosto. Acho-a uma chata, na maior parte do tempo uma inútil também, e odeio como o Kvothe, o protagonista, se transforma em um palerma quando está com ela. Poucas não foram as vezes em que eu pausei a leitura de O Nome do Vento e de O Temor do Sábio quando a Denna aparecia, porque, sério, ela é um saco. Um porre. Minha vida (e a do Kvothe, suspeito) seria mais fácil se ela sumisse de vez da história que, tirando ela e alguns outros poucos defeitos, é maravilhosa. Então, sim, eu também não gosto nem um pouco da Denna.

O problema foi o modo com que um pequeno detalhe sobre a Denna foi colocado por alguns participantes dessa discussão. Veja bem, a Denna é uma prostituta (ou uma cortesã, sei lá), e em O Temor do Sábio somos levados a acreditar que ela é uma prostituta/cortesã porque não tem como se sustentar de outro modo. Nessa discussão desse grupo no facebook, várias pessoas se referiram a ela como “uma vadia que só vive dando em cima de homens por aí” ou, com desprezo, disseram que “ela é só uma vadia”, e isso meio que me deixou meio desconfortável, mas foi só quando outra pessoa – uma mulher – apontou que aquilo era machismo que me senti à vontade para concordar. Podem chamar de covardia, mas geralmente evito entrar em discussões sobre feminismo, misoginia, misandria ou machismo quando sei que a maior parte dos envolvidos é formada por homens, já que muitas vezes isso significa dar murro em ponta de faca e, sinceramente, eu não tenho muito saco para isso não. Ou saco para discussões em geral.

Considerar uma mulher (ou homem) inferior ou tratá-la/o com desprezo por causa do aspecto sexual de sua vida não é apenas machismo; é slutshamming.

Slutshamming [em inglês, slut pode significar vadia ou vagabunda, e shamming vem de shame, que significa vergonha] é tratar com desprezo ou considerar inferior homens ou mulheres por causa do aspecto sexual de suas vidas. Esse “aspecto sexual” pode ser o próprio sexo, mas se estende também ao modo de vestir, principalmente das mulheres, que muitas vezes sofrem reprimendas por usar roupas “sexy demais”.

Me responda: se você encontrasse uma prostituta em qualquer lugar que seja, você a trataria mal ou de um modo diferente? Se a resposta for sim, acredito que esteja na hora de você rever algumas opiniões suas. É meio estranho ter que que falar isso (já que deveria ser algo óbvio), mas prostitutas são pessoas normais. Elas podem estar nessa profissão por necessidade ou por pura vontade, não importa; você pode não concordar, mas diminuí-las por causa disso é estupidamente errado.  E é slutshamming.

Slutshamming é falar mal de garotas ou mulheres que fazem sexo com vários homens também. Veja bem, quando um homem “pega” várias, ele não sofre nem um décimo do que a mulher sofre ao “pegar” vários; pelo contrário, ele tem sua masculinidade reafirmada ao sair com muitas mulheres. Outros homens aprovam, outras mulheres podem até sacudir a cabeça em reprovação, mas a coisa toda é vista como algo normal. Mas uma mulher? Saindo com vários caras? Ah, essa é uma vadia, uma “rodada”, e é totalmente aceitável fofocar sobre ela ou mesmo rir dela. Obviamente, é igualmente errado chamar um homem de canalha ou de vagabundo, ou até mesmo de galinha, mas é óbvio também que chamar um cara de galinha não tem o mesmo impacto e não causa o mesmo estrago do que chamar uma mulher de cachorra ou vadia. Porque, como eu já disse, homens com vida sexual ativa é algo esperado; eu até mesmo já vi garotos sendo zoados por homens e mulheres mais velhas por não ter uma, por serem virgens (e isso já é outro grande problema). Mulheres não têm essa liberdade.

O problema dos comentários dessa discussão sobre a Denna não foi o fato de não gostarem dela; foi o de usarem esse aspecto da vida dela para justificar esse não gostar. Eu não gosto da Denna, mas meus motivos passam longe do fato de ela ser uma prostituta. Uma pessoa não pode ser definida, gostada ou desgostada, por sua profissão, mesmo que esta seja uma tão mal-vista como a prostituição.

A reação ao comentário dessa outra mulher sobre machismo e ao meu sobre slutshamming foram coisa de outro mundo. Eu fiquei até surpresa com a voracidade com quem essas pessoas – homens – expressaram sua opinião. Foram comentários com quotes como “essa chatice de feminismo até mesmo aqui”, “lá vem essas feministas estragando uma conversa normal”, “esse politicamente correto estraga toda a diversão” e mais frases simpáticas assim. Houve até um cara dizendo que feminismo era endeusar a mulher, odiar os homens e desejar um mundo onde os homens se joguem aos nossos pés e lambam nossos dedos. Ele ainda disse que nós, mulheres, já temos mais direitos do que eles, os homens, mas isso é uma grande mentira. E essa concepção de feminismo dele está total e completamente errada. Isso de endeusar as mulheres e odiar os homens é misandria.

Misandria é o ódio ou desprezo ao sexo masculino (homens ou meninos). É o oposto de misoginia, o ódio ou desprezo ao sexo feminino.

Misandria não é feminismo. Feminismo é um movimento que busca a igualdade entre homens e mulheres e não a superioridade da mulher. Existem sim várias “feministas” por aí que na verdade praticam a misandria, mas elas não representam todo o movimento (até porque elas não fazem parte dele. Se você ver qualquer mulher que se diz feminista incitando o ódio aos homens, não se engane; é misandria, não feminismo). Feminismo jamais será sobre fazer os homens se ajoelharem e lamberem nossos dedos; feminismo é sobre lutar, entre outras coisas, para que mulheres com vida sexual ativa não sejam desprezadas ou odiadas pela sociedade, para que a mulher tenha a liberdade para ser o quão sexual ela quiser, com quem quiser. Simples assim.

Outro ponto levantado por esses homens tão aborrecidos com o fato de que nós, feministas, estávamos estragando a “conversa normal” deles foi o de que a Denna não é real e que por isso estávamos fazendo uma tempestade em um copo d’água. Para eles, nós não deveríamos nos importar tanto com o slutshamming praticado contra uma personagem fictícia. Deveríamos parar de poluir o post com nossos argumentos irritantes. Afinal, é só um livro. Para que “estragar” o “divertimento” de todos por causa do que foi dito sobre uma personagem?

Porque não é só um livro. Não é só uma personagem. É algo muito maior. Lembra da cultura de estupro do post passado entranhada nos livros YA da atualidade? É a mesma coisa. É a cultura da misoginia e do machismo entranhada nos livros de fantasia, ficção científica e em praticamente todos os gêneros. Lembra do “a vida imita a arte e arte imita a vida”? Então, é bem assim. Enquanto esses valores continuarem sendo passados através de filmes, livros e o diabo que for, eles não vão desaparecer. A literatura reflete a sociedade; reflete o que pensamos, o que desejamos, o que achamos certo e o que achamos errado. Concordar com a perpetuação do machismo e do slutshamming só porque é sobre uma personagem que não existe é concordar com a perpetuação do machismo e do slutshamming na sociedade como um todo. É continuar rindo e desprezando aquela garota da escola, do trabalho ou da faculdade só porque ela já fez sexo com muitos homens. É continuar xingando aquelas cantoras que usam roupas curtas porque “elas são umas vadias”, mas continuar sentado e calado quando cantores tiram a camisa e exalam a masculinidade deles por aí sem ouvir uma reclamação sequer.

Essa discussão toda ficou na minha mente também por outro motivo: Anita Sarkeesian.

Anita Sarkeesian é uma feminista, uma crítica de jogos que foca principalmente em como as mulheres são retratadas nos videogames. Desde que começou com suas críticas, Sarkeesian já recebeu inúmeras ameaças de atentados contra sua vida. A mais recente e a que causou a explosão do assunto na mídia internacional foi uma que acabou levando ao cancelamento de uma de suas palestras. Essa palestra, que aconteceria na Utah State University, foi cancelada simplesmente porque as leis do estado de Utah (EUA) permitem que pessoas andem armadas por aí. A universidade teria se recusado, então, a revistar as pessoas que atenderiam a palestra. A ameaça da vez, falando nisso, era entrar atirando na sala onde Sarkeesian estaria palestrando.

Ou seja, essa confusão toda aconteceu apenas porque Sarkeesian critica o modo com que mulheres em jogos geralmente só servem para serem sequestradas, para chocar ou para servir de plano de fundo. Pense nas prostitutas de GTA, as únicas mulheres do jogo inteiro, que só estão lá mesmo para o jogador – sempre um homem – as usar quando quiser. Os infelizes criaram até mesmo um jogo onde você pode literalmente bater na Anita Sarkeesian; tudo isso por causa de críticas. Críticas! [Para saber mais clique aqui].

Essa discussão no facebook ter acontecido ao mesmo tempo em que essa situação eclodiu acabou deixando o assunto na minha mente. Um assunto que envolve também algo que uma das pessoas (a mesma do “feminismo é endeusar as mulheres”) falou. Quando eu disse que feminismo não é misandria, essa pessoa perguntou então, ironicamente, se o papel das “femininas certinhas” era ir em posts por aí estragando a conversa de todos. Respondi que tínhamos que fazer isso porque se não reclamarmos não haverá mudança alguma no modo com que as mulheres são vistas ou retratadas na literatura. O que ele disse em seguida me deixou até atordoada: foi algo como, “por que vocês querem mudar a literatura por causa de uma minoria? Desse jeito vocês vão é estragar tudo.”

Sim, isso aconteceu. Não, eu não estão mentindo. Vocês podem imaginar o quão estupefata fiquei com a coisa toda porque isso não faz sentido nenhum. Nenhum! Infelizmente, demorei um pouco para responder e, adivinha, o outro cara – provavelmente um moderador do grupo – deletou o post porque nós tínhamos “transformado algo divertido em uma confusão por nada” (a parte triste é que esse outro cara é, aparentemente, um escritor. Não posso me impedir de pensar nos ideais que ele passará em seus livros e em como jamais chegarei perto deles). Fiquei sem dar minha resposta, que está aqui, entalada. E aí vai:

Primeiro, pelo menos aqui no Brasil, mulheres são a maioria. Não somos minoria, criatura divina. E mesmo que fossemos, por que não teríamos direito de ser bem representadas em filmes, livros e jogos? Eu até gostaria de perguntar para esse cara se ele é contra a inclusão de não-brancos, homossexuais, bissexuais e transsexuais em livros, filmes e jogos só porque esses grupos são minoria (não-brancos nem sempre, porém, e mesmo assim não são bem representados). Minorias agora não têm direito a representação, então? E se elas forem representadas, elas vão “estragar tudo” para quem? Para homens, em sua maioria brancos e heterossexuais, que estão acostumados a ser os protagonistas em tudo, principalmente em livros de fantasia e ficção científica? E por que diabos isso estragaria tudo para homens? O ego é grande demais para admitir a presença de todas essas minorias nesses gêneros que por tanto tempo foram escritos e lidos por homens heterossexuais (e que continuam até hoje, infelizmente)?

Onde está a lógica nisso?

Sei que a discussão do grupo não foi sobre essas minorias (e não os estou julgando racistas, homofóbicos ou o que for, até porque não os conheço e não faço a menor ideia sobre seus posicionamentos sobre essas questões), mas só pelo fato de que o feminismo foi tratado como uma praga e pelo modo como o slutshamming aconteceu sem a menor hesitação, junto à reação que meu comentário provocou me faz pensar em como a maior parte dos leitores de fantasia e ficção científica, não exatamente eles desse grupo, encarariam a presença dessas minorias nos livros que eles tanto amam. Não só falando de livros, mas filmes, jogos, animes e o diabo a quatro. Quero dizer, essas minorias não estão sendo representadas bem hoje em dia por algum motivo, não é? E se um comentário, um simples comentário, sem ofensa nenhuma, causou esse rebuliço todo eu temo pelo momento em que essas outras questões forem colocadas em foco.

Como eu disse lá em cima, a literatura reflete a sociedade e a arte imita a vida. Se na literatura, se na arte, apenas homens brancos heterossexuais são colocados como protagonistas, é assim que vai acontecer na sociedade e na vida. Negar a existência de mulheres (mulheres de verdade, e não essas que povoam os livros por aí), homossexuais, bissexuais, transsexuais, não-brancos e de tantos outros grupos por aí é tirar a voz deles, é negar sua importância e sua presença. É reforçar a ideia de que esses grupos podem continuar sem seu espaço na nossa sociedade. E se você não vê algo de errado nisso, sinto muito, mas você é um grande babaca. Sem mais.

Esse “apagamento” de minorias é tão grande que poucos são os livros em que me lembro de tê-los visto bem representados. Falando de fantasia, coloquemos os livros mais famosos em foco por um minuto. Peguemos, não sei, O Senhor dos Anéis/O Silmarillion, A Crônica do Matador do Rei, As Crônicas de Gelo e Fogo, Mistborn, Eragon, Nárnia, O Poder da Espada, As Mentiras de Locke Lamora, Tigana, Mago, e indo pras nacionais, O Espadachim de Carvão, A Batalha do Apocalipse/Filhos do Éden, O Código Élfico, Fios de Prata e Filhos de Galagah. Peguei esses porque os li e posso opinar, mas você pode usar outros que você tenha lido. Vamos fazer um teste rápido, então?

Desses livros, quais possuem mulheres sendo bem representadas? O Senhor dos Anéis tem apenas duas (sou fã, mas não negarei jamais as falhas da série). O Silmarillion é melhor nesse aspecto, com mais de três, se não me engano. A Crônica do Matador do Rei tem duas (sou fã também, mas né), As Crônicas de Gelo e Fogo tem sim mulheres sendo bem representadas (várias), Mistborn tem apenas uma, a protagonista (não tem mais nenhuma mulher relevante na história, pelo menos no livro 1), Eragon tem três, Nárnia tem duas (mais ou menos), O Poder da Espada não tem nenhuma, As Mentiras de Locke Lamora tem uma, que nem sequer faz parte dos personagens principais (teria outra, mas ela morre mais ou menos na metade do livro antes de termos a oportunidade de conhecê-la de verdade), Tigana tem, hm, uma (há controvérsias) e Mago não tem nenhuma. Dos nacionais, O Espadachim de Carvão não tem nenhuma, A Batalha do Apocalipse tem uma, Filhos do Éden tem uma, O Código Élfico tem duas, Fios de Prata não tem nenhuma e Filhos de Galagah tem duas. Os campeões são As Crônicas de Gelo e FogoO SilmarillionEragon, e desses apenas As Crônicas de Gelo e Fogo tem um número de mulheres próximo do número de homens.

Desses livros, quais possuem personagens homossexuais, bem representados ou não? A Crônica do Matador do Rei, As Crônicas de Gelo e FogoTigana. Muitos, né? E nenhum desses personagens é um dos personagens principais.

Desses livros, quais possuem personagens bissexuais, bem representados ou não? Até onde se sabe, nenhum.

Desses livros, quais possuem personagens transsexuais, bem representados ou não? Nenhum. O único livro de fantasia com personagem transsexual que eu já li (e bem representado, ainda por cima!) foi EonEon é tão fora de série que além disso tem como protagonista uma garota, e boa parte da trama gira justamente em torno desse fato.

Desses livros, quais possuem personagens não-brancos bem representados? Eragon O Espadachim de Carvão, se não me falha a memória. A maior parte dos outros sequer tem personagens não-brancos. Além disso, o único livro de fantasia com “asiáticos” (não seriam asiáticos nos mundos criados desses livros, obviamente, já que não existiria uma Ásia) que me vem na memória agora é Stormdancer, e esse eu nem li ainda. E quase nunca há mulatos ou morenos; apenas brancos e negros (quando há negros).

Percebem o tamanho do problema? E eu nem incluí todas as minorias nesse pequeno teste. Percebem o número de pessoas sem voz e sem presença em livros que deveriam representar e refletir nossa sociedade? Pois é.

Mas para as pessoas com quem discuti ontem, lembrar desses “detalhes” é um aborrecimento, é papo de feminista chata. Isso principalmente porque essas pessoas são homens, e homens são favorecidos em todos os gêneros literários. Lembrar que todas essas minorias continuam sem representação é tentar tirá-los da sua zona de conforto. É chato. Estraga a diversão. Estraga a prioridade e o protagonismo que essas pessoas estão acostumadas a ter. E, obviamente, elas gostam desse protagonismo, e como gostam. Levar a sério algo assim? Pra quê? Pra que prestar atenção nas feministas chatas, nas minorias sem importância que vivem tentando roubar seu lugar? Obviamente só estão tentando estragar tudo, destruir a fantasia e a ficção científica (ignoremos o fato de que um dos primeiros livros de ficção científica, Frankenstein, foi escrito por uma mulher, ou que um dos maiores fenômenos da fantasia urbana, Harry Potter, foi escrito por uma mulher. Isso é conveniente esquecer).

Eu até pensei em deixar o grupo após essa discussão, porque, sinceramente, foi uma decepção. Muitos grupos voltados para livros são uma completa zona onde ninguém respeita a opinião de ninguém, mas esse sempre foi muito bom nesse quesito. Nunca vi ninguém sendo jogado aos tubarões por não gostar de tal livro lá, e como geralmente não gosto de quase nada esse aspecto foi um grande alívio. Mas permanecer em um grupo onde discussões desse tipo são deletadas (sendo que ninguém tinha desrespeitado ninguém) sem mais nem menos por um moderador que discordou de certas opiniões me deixa incomodada. Decidi ficar, porém, por causa dos posts com assuntos menos polêmicos e pela leitura conjunta. Não irei mais participar de discussões sobre feminismo ou machismo ou misandria ou misoginia ou até mesmo representação de minorias por lá; o ambiente é meio contrário à manifestação de opiniões que “estraguem uma conversa normal” e, sinceramente, eu não estou aqui para isso. Nem tenho saco para lidar com esse tipo de gente. Até mesmo porque elas não mudam nada; quem muda são os leitores que falam inglês, porque lá fora pelo menos discussões como essas são levadas a sério, e têm apoio dos autores. E como consumo muito mais fantasia estrangeira, é lá fora onde presto atenção.

Patrick Rothfuss, por exemplo, é um dos meus autores favoritos não apenas porque eu adoro A Crônica do Matador do Rei, mas sim porque ele próprio tem posicionamentos ótimos sobre feminismo e gender roles. O mesmo, pelo que eu vi nesses poucos dias desde que o venho seguindo no Twitter, se aplica a Anthony Ryan, autor de A Canção de Sangue, livro que ainda não li. Autores que pensam de modo diferente, que são homofóbicos ou misóginos, ou que de modo estúpido são contra o feminismo por insistirem que feministas odeiam homens, rapidamente me convencem a não ler nenhum de seus livros. É o caso de  Orson Scott Card, autor do livro de Ender’s Game, um filme que eu adorei, mas como ele, o autor, é homofóbico (dá para acreditar, pensando no tema de Ender’s Game, que ele é um? Mas é. Vai entender), minha vontade de ler os livros dele é quase nula.

Isso se aplica a autores de fantasia brasileiros também. E, pelo que eu vi, muitos ainda pensam que feminismo é misandria, e nenhum além do autor de Espadachim de Carvão incluiu pelo menos um desses grupos menos favorecidos pela literatura em seus trabalhos. Dos que eu li, no caso. Não dá para levar livros assim a sério. Se os lá de fora já são péssimos nesse aspecto, os daqui estão pela hora da morte. E, aparentemente, não vai mudar tão cedo. Não enquanto discussões sobre esse tema continuarem sendo tratadas como um aborrecimento por essa maioria tão favorecida.

Então, sim, sempre serei a feminista chata. Sempre tirarei pontos dos livros que leio pelo fato de não terem mulheres bem retratadas ou por não terem nenhum personagem desses outros grupos. Tiro mesmo, e tiro sem pena. Bater nessa tecla mil vezes é o único meio que possuo hoje de mostrar que não estou satisfeita e que exijo uma literatura que abranja todo mundo. Sempre irei falar e lembrar que slutshamming ou qualquer outra foma de opressão é errado, simplesmente porque é errado e acabou, doa a quem doer. E essa maioria favorecida e embirrada, que agarra esse protagonismo com unhas e dentes, como uma criança mimada, pode falar o que quiser e bater os pés à vontade. Pode demorar a chegar aqui no Brasil, mas essa ideia de que slutshamming é errado, de que minorias são tão importantes quanto a maioria, vai chegar e ponto final. As coisas estão mudando, vocês gostem disso ou não.

Lista de leitura – outubro e novembro

Estreando a segunda coluna do NL, temos minha lista de livros para ler (ou ao menos tentar) em outubro e novembro. Leio dois livros ao mesmo tempo; um físico e um no tablet, com os físicos sendo geralmente livros em português lançados aqui no Brasil e os do tablet obras em inglês ainda sem versão brasileira, embora haja exceções. Atualmente estou lendo Luck in the Shadows no tablet e O Poder da Espada em livro físico. Enfim, aqui está minha lista de leitura para os próximos meses:

  • A Canção do Sangue (A Sombra do Corvo #01), Anthony Ryan

Quando Vaelin Al Sorna, um garoto de apenas 10 anos de idade, é deixado por seu pai na Casa da Sexta Ordem, ele é informado que sua única família agora é a Ordem. Durante vários anos ele é treinado de forma brutal e austera, além de ser condicionado a uma vida perigosa e celibatária. Mesmo assim, Vaelin resiste e torna-se líder entre seus irmãos. Ao longo de sua jornada, Vaelin também descobrirá de quem foi o verdadeiro desejo para que ele fosse entregue à Ordem o objetivo sempre foi protegê-lo, mas ele não tem ideia do quê. Aos poucos, indícios de uma esquecida Sétima Ordem e questões acerca das ações do Rei Janus fazem Vaelin Al Sorna questionar sua lealdade. Destinado a um futuro grandioso, ele ainda tem que compreender em quem confiar. Neste primeiro volume da trilogia A Sombra do Corvo, Anthony Ryan estreia de maneira promissora na literatura com uma aventura repleta de ação.

A Canção do Sangue, primeiro livro de Anthony Ryan e publicado de modo independente em 2011, foi tão bem recebido que acabou sendo lançado novamente, dessa vez sob uma editora, em 2012, e desde então vem colecionando centenas de fãs e inúmeras críticas positivas. Até alguns dias atrás eu nem sabia que ele seria lançado aqui no Brasil e já estava fazendo planos para lê-lo em inglês (planos que me deixavam um tanto para baixo – fantasia em inglês ainda me dá dor de cabeça de vez em quando), mas, felizmente, a Leya já lançou o livro e, em um impulso, eu já o comprei (culpa da Saraiva que o está vendendo por quarenta reais). Tenho umas expectativas bem altas para A Canção do Sangue – a sinopse é ótima e a nota no GoodReads (4.54), melhor ainda.

  • Gardens of the Moon (The Malazan Book of the Fallen #01), Steven Erikson

O Império Malazano ferve com o descontentamento, ressecado pela guerra interminável, amargas brigas internas e confrontos sangrentos. Mesmo as legiões imperiais, acostumadas com o derramamento de sangue, anseiam por um pouco de descanso. No entanto, o governo da Imperatriz Laseen permanece absoluto, imposto pelo medo por seus assassinos da Garra. Para o sargento Whiskeyjack e seu esquadrão de Bridgeburners, e para Tattersail, mago sobrevivente da Segunda Legião, as consequências do cerco à Pale deveria ter sido um tempo para lamentar os muitos mortos. Mas Darujhistan, última das Cidades Livres de Genabackis, ainda resiste. É a esta antiga cidadela que Laseen lança seu olhar predatório. No entanto, parece que o Império não está sozinho neste grande jogo. Sinistras forças sombrias estão se reunindo enquanto os próprios deuses se preparam para jogar a sua mão.

Esse já tem até capa e nome em português (Os Jardins da Lua, primeiro volume da série As Crônicas do Império Malazano). Gardens of the Moon será lançado no Brasil pela editora Saída de Emergência, embora ninguém saiba exatamente quando (final de 2015, início de 2016 e assim por diante). Confesso que estava esperando lançarem por aqui mesmo porque, como disse lá em cima, fantasia em inglês ainda me dá dor de cabeça, mas depois de descobrir que corro o risco de esperar mais um ano inteiro resolvi deixar esse incômodo de lado e começar a série. Tenho expectativas mistas para Gardens of the Moon; já ouvi falarem muito bem e também já ouvi falarem muito mal, e a nota no GoodReads me deixa meio apreensiva (3.82). Mas ouvi dizerem também que há personagens femininas boas e até personagens LGBT+, então, é, estou ansiosa para começar esse livro.

  • As Mentiras de Locke Lamora (Nobres Vigaristas #01), Scott Lynch

O Espinho é uma figura lendária: um espadachim imbatível, um especialista em roubos vultosos, um fantasma que atravessa paredes. Metade da excêntrica cidade de Camorr acredita que ele seja um defensor dos pobres, enquanto o restante o considera apenas uma invencionice ridícula.Franzino, azarado no amor e sem nenhuma habilidade com a espada, Locke Lamora é o homem por trás do fabuloso Espinho, cujas façanhas alcançaram uma fama indesejada. Ele de fato rouba dos ricos (de quem mais valeria a pena roubar?), mas os pobres não veem nem a cor do dinheiro conquistado com os golpes, que vai todo para os bolsos de Locke e de seus comparsas: os Nobres Vigaristas.O único lar do astuto grupo é o submundo da antiquíssima Camorr, que começa a ser assolado por um misterioso assassino com poder de superar até mesmo o Espinho. Matando líderes de gangues, ele instaura uma guerra clandestina e ameaça mergulhar a cidade em um banho de sangue. Preso em uma armadilha sinistra, Locke e seus amigos terão sua lealdade e inteligência testadas ao máximo e precisarão lutar para sobreviver.

O tanto que já ouvi falar bem desse livro me deixa com expectativas muito, muito altas, mas também falavam muito bem de Mago – Aprendiz, de Tigana e de A Espada de Shannara e Deus sabe como odiei esses livros. De As Mentiras de Locke Lamora, porém, não ouvi falarem mal em ocasião praticamente nenhuma, então acho estou a salvo de outra decepção dessa vez. A nota no GoodReads também é ótima (4.27), mas, infelizmente, nunca se sabe.

  • The Young Elites (The Young Elites #01), Marie Lu

Estou cansada de ser usada, ferida e deixada de lado.

Adelina Amouteru é uma sobrevivente da febre de sangue. Dez anos atrás, essa doença mortal varreu sua nação. A maior parte dos infectados morreram, enquanto muitas das crianças que sobreviveram foram deixadas para trás com marcas estranhas. O cabelo negro de Adelina se tornou prateado, seus cílios ficaram pálidos e agora ela tem apenas uma cicatriz irregular onde seu olho esquerdo um dia esteve. Seu pai cruel acredita que ela é um malfetto, uma abominação, arruinando o bom nome de sua família e bloqueando o caminho de sua fortuna. Mas rumores dizem que alguns dos sobreviventes da febre possuem mais do que cicatrizes – muitos acreditam que eles detém dons poderosos e misteriosos, e apesar de suas identidades se manterem em segredo, eles começaram a ser chamados de Jovens Elites.

Teren Santoro trabalha para o rei. Como Líder da Inquisição Axis, é seu trabalho caçar os Jovens Elites, destruí-los antes que eles destruam a nação. Ele acredita que os Jovens Elites são perigosos e vingativos, mas é Teren quem pode possuir o segredo mais sombrio de todos.

Enzo Valenciano é um membro da Irmandade da Adaga. A seita secreta de Jovens Elites procura outros como eles próprios antes que a Inquisição Axis o faça. Mas quando os Adagas encontram Adelina, eles descobrem alguém com poderes como eles jamais viram.

Adelina quer acreditar que Enzo está do seu lado, e que Teren é o verdadeiro inimigo. Mas a vida desses três irá colidir de modo inexperado na medida que cada um luta uma batalha pessoal e diferente. Mas de uma coisa eles têm certeza: Adelina possui habilidades que não pertencem a esse mundo. Uma escuridão vingativa em seu coração. E um desejo de destruir todos que se atrevam a cruzar seu caminho.

É minha vez de usar. Minha vez de ferir.*

*tradução livre

Esse livro tem tudo – tudo! – para ser simplesmente incrível. Li as primeiras páginas de Legend, o primeiro (se não me engano) livro da autora, e não achei grande coisa (embora pretenda sim lê-lo um dia), mas o único capítulo lançado até agora de The Young Elites é muito, muito bom, e mil vezes melhor do que as primeiras páginas que li de Legend. Nem preciso dizer que estou muito ansiosa por esse livro (pode-se dizer que ele é minha última tentativa de continuar lendo YA). Além disso, estou mais do que pronta para colocar Adelina no pedestal de melhores protagonistas do gênero (ela é uma anti-herói e isso simplesmente não existe em canto nenhum, praticamente. E não tem um olho. Tudo indica que ela vai ser maravilhosa) e a nota no GoodReads é alta para um YA (4.04). Meu único medo é Teren, Enzo e Adelina acabarem em um triângulo amoroso.

Eu não sei o que sou capaz de fazer se eles acabarem mesmo em um triângulo amoroso. Eu. Não. Sei.

!!!!

  • The Mirror Empire (The Worldbreaker Saga #01), Kameron Hurley

Nas vésperas de um evento catastrófico recorrente conhecido por extinguir nações e remodelar continentes, um órfão problemático escapa da morte e da escravidão para descobrir seu próprio passado sangrento… Enquanto um mundo vai para a guerra contra si mesmo.

No reino congelado de Saiduan, invasores de outro reino estão dizimando cidades inteiras, deixando para trás nada além de cinzas e ruínas.

À medida que a estrela negra do cataclismo surge, um governante ilegítimo tem a tarefa de manter unido um país fraturado pela guerra civil, um jovem lutador precoce é convidado a trair sua família uma general meio-Dhai tem que decidir entre a erradicação do povo de seu pai e a lealdade para com sua Imperatriz alienígena.

Através de alianças tensas e traições devastadoras, os Dhai e seus aliados tentam se manter contra uma força aparentemente imparável enquanto nações inimigas se preparam para um encontro de mundos tão antigo quanto o próprio universo.

O final, um mundo se erguerá – e muitos perecerão.

Quando li a sinopse desse livro pela primeira vez fiquei muito empolgada porque, bem, olha só essa sinopse; não parece indicar um livro de fantasia muito diferente do usual? Algo original, inusitado, que se sobressaia num mar de literatura fantástica que propõe a mesma coisa? Era algo assim que eu estava esperando – é algo assim que estou esperando, mas agora não pelos mesmos motivos.

Li algumas resenhas desse livro. Uma, porém, se destacou; o autor da resenha reclamou da ausência de personagens masculinos marcantes – pausa para franzir a testa -, reclamou da ideia de homens serem vistos como seres inferiores às mulheres no livro – pausa para checar a sinopse de novo -, reclamou da violência contra esses homens – pausa para checar a capa, a sinopse e para refletir por um minuto – e, por fim, reclamou da aparente ausência de personagens heterossexuais.

Essas reclamações são meio engraçadas, não acha?

Depois de ler essa resenha percebi que há duas opções. Primeira: o autor da resenha pode estar certo e todos os elementos acima citados só existem para chocar e para mascarar uma história fraca (o que é possível e o que vai me deixar revoltada de se for verdade). Segunda: o autor da resenha (um homem!) só está se sentindo incomodado porque não está acostumado, como nós mulheres estamos e como as outras minorias também estão, a ser o suposto lado mais fraco da corda. Rá!

Ou seja, The Mirror Empire vai ser ou o meu melhor livro do ano ou a minha maior decepção literária. Sem mais.

(Nota 3.91 no GoodReads, o que me deixa um tanto apreensiva).

Não acho que eu vá conseguir ler seis livros em menos de dois meses, mas a intenção é o que conta. Provavelmente termino O Poder da Espada Luck in the Shadows nos próximos dias, então as resenhas de ambos estarão aqui no blog em breve.

E vocês, o que pretendem ler agora em outubro-novembro?

Rants literários: Literatura YA e a cultura de estupro

Quando falamos da teoria, eu gosto muito de livros Young Adult.

Veja bem, na teoria YA é um gênero ótimo: é sobre histórias de jovens se tornando adultos, naquela já familiar fórmula do rito de passagem, e isso, é claro, deveria servir para que pessoas como eu (no auge dos 18 anos e, portanto, uma jovem se tornando adulta) se identificassem com a coisa toda. Segundo especialistas, ter esse tipo de livro por aí pode ajudar e entreter muitos jovens que não sabem o que diabos querem fazer da vida ou quem são, já que neles os protagonistas estão praticamente no mesmo barco (mesmo quando “descobrir quem são” envolve o protagonista descobrindo que é algum tipo de criatura mística, o que seria, portanto, uma espécie de metáfora para a vida adulta). Então sim, YA, na teoria, é um gênero maravilhoso.

Mas na prática não. Principalmente quando os livros são voltados para garotas.
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