Rants literários: a substituição da construção de personagem por seu papel na história

Uma das coisas que eu mais odeio ao ler qualquer livro é ver a construção – e mais tarde o desenvolvimento – de um personagem substituídos por seu papel na história. É algo que acontece com tanta frequência que muitas pessoas sequer notam que há alguma coisa de errado, o que, é claro, abre mais espaço para que essa substituição continue sendo feita. E, acredite em mim, isso é sim uma perda horrível para a literatura.

Mas o que, exatamente, é essa substituição da construção de personagem por seu papel na história?

É algo até bem simples e bem óbvio, e que começa assim que lemos a sinopse de um livro. Na sinopse, a depender do gênero, nos é informado quem são os protagonistas, quem são os inimigos, quem são os pares românticos, quem são seus amigos, etc, e isso tudo nos leva a ter um pré-conceito de cada um desses personagens. É como se os estivéssemos encaixando em seus lugares, como uma peça de quebra-cabeças, e assim acabamos por definir seus papéis. Acabamos, portanto, já gostando ou desgostando desses personagens antes mesmo de conhecê-los.

É claro que não há problema algum nisso; o problema só começa quando esse pré-conceito, essa opinião formada antes do conhecer, é usada para substituir a construção e desenvolvimento de um personagem. O escritor presume que já estamos inclinados a gostar do personagem Z e a odiar o Y (e geralmente estamos mesmo) e não faz muito esforço para realmente tornar o personagem Z alguém interessante o bastante para se gostar ou para transformar o personagem Y em um vilão de verdade. Isso acontece principalmente (mas não exclusivamente, vale frisar) em livros YA voltados para garotas; desde a página 1 já sabemos que a protagonista, nosso maior meio de se conectar à história, vai se apaixonar pelo garoto mencionado na sinopse como o interesse romântico, então já nos acostumamos com a ideia de gostar dele. Ele pode acabar sendo um stalker agressivo e controlador (como já discutido no primeiro post dos rants), mas não importa, porque ele é o interesse romântico e provavelmente é lindo de morrer, então, sim, gostaremos dele, mas gostaremos pelo papel que ele tem na história, e não por ele próprio.

Como eu já disse, isso acontece em todos os gêneros, com todos os tipos de personagem. Somos condicionados a simpatizar com o melhor amigo do protagonista, a odiar o vilão/antagonista, a gostar do interesse romântico (e assim por diante) o tempo todo, em todo livro que lemos. O próprio protagonista acaba no meio dessa confusão também, e os autores usam os meios mais simplistas de fazer com que o leitor se identifique com o personagem principal da história; ele é sempre tímido ou quieto, com poucos (mas ótimos) amigos, e sempre gosta de ler. Por quê? Simples: essas são as características mais comuns em leitores do mundo todo. Tendemos a ser mais introvertidos e muitas vezes esse é o motivo de termos começado a ler tanto. Fazer um personagem assim é o jeito mais barato e preguiçoso de (tentar) fazer com que o leitor se identifique com a história. Ou seja, lazy writing.

Não estou dizendo que é um crime criar um personagem principal tímido ou quieto que goste de ler; o problema é criar um personagem definido apenas por essas características, sem ter, portanto, profundidade alguma. Personagens assim são portas de entrada para o reino Mary Sue, e você obviamente não quer isso na sua história, certo? Certo.

Essa predisposição que temos antes de iniciar qualquer livro (e também durante a leitura) faz com que perdoemos atos cometidos pelos mocinhos quando na verdade jamais o faríamos se eles tivessem sido feitos pelos “caras maus”. Sim, fulano pode ter feito algo horrível, mas ele é o protagonista, Cicrano foi um babaca, mas ele está do “lado do bem”, Beltrano pisou na bola, mas ele é o melhor amigo do personagem principal… E assim vamos ignorando os próprios personagens e valorizando apenas o papel deles na história.

Evitar que isso aconteça é bem simples: é só se esquecer dos papéis que os personagens ocupam e julgá-los por eles mesmo. Para escrever, é claro, a coisa se torna um pouco mais complicada, mas é só parar de fazer personagens que se encaixem nesses papéis e começar a ajustar os papéis após ter construído o personagem. Se isso não for feito acabaremos com mais e mais personagens que são praticamente iguais por serem definidos apenas por esses papéis, com apenas uma ou outra característica escolhida apenas para tentar fazê-los parecer mais originais. Todos, é claro, sem profundidade alguma.

E como bem sabemos, poucas ou nenhuma história sobrevive com personagens ruins, mas estamos muito acostumados a ler (e gostar de) personagens ruins, então qualquer história que se diferencie, que realmente invista em construir personagens bons e bem desenvolvidos, acabará se destacando das demais. Bons personagens são, hoje em dia, a arma secreta de qualquer escritor – é uma pena que tão poucos saibam usá-la de fato.

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2 comentários sobre “Rants literários: a substituição da construção de personagem por seu papel na história

  1. Pior que nunca tinha parado para pensar nisso. Nessa hora vemos que uma história com personagens “cinzas” normalmente se destaca das demais por se focar nas atitudes deles e não (somente) em seu papel na história, pois o mocinho pode muito bem virar vilão e vice-versa e saberemos disso por meio dos seus atos.

    Abraço!

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