Rants literários: o (mau) comportamento dos autores na era da internet

OBS: Os links desse post são todos para artigos em inglês. Infelizmente, não tem muito sobre o assunto em português.

OBS2: O rant de hoje não é bem um rant… É bem mais “leve” do que os outros no quesito de eu expressar minhas opiniões (embora elas ainda estejam aí), mas o tópico é bem importante para quem pertence ao meio literário.

OBS3: Post gigante. Oops.

Antigamente ser um escritor publicado era bem mais fácil. Você só tinha que escrever o livro, revisar algumas vezes, reescrever, achar uma editora interessada e então publicar sua obra. Depois de ver sua criação impressa e nas livrarias, o escritor publicado do século passado talvez fosse falar dela para os amigos, vizinhos e para família, e também no seu local de trabalho. Sim, fazer tudo isso dá um trabalho danado mesmo, mas era só. Não havia mais o que fazer. Hoje, feliz ou infelizmente, as coisas não são mais assim; o autor contemporâneo tem que, também, estar na internet.

“Estar na internet” não é bem a melhor escolha de palavras, para falar a verdade. Talvez “criar uma presença na internet” seja mais aplicável ao que acontece hoje em dia. Com muito mais escritores do que jamais tivemos em qualquer outro período da história, atualmente só se destaca aquele que der muita sorte ou que tenha muita determinação para conquistar seu espaço. E para conquistar o seu espaço, o autor precisar estar na internet o tempo todo, mas, mais uma vez feliz ou infelizmente, a internet também abriu espaço para um feedback maior. Com a existência de sites como o Skoob aqui no Brasil, e o GoodReads e o Leafmarks lá fora, qualquer autor pode dar uma espiada no que estão falando sobre seu livro a qualquer instante. Isso pode, claro, ser maravilhoso (imagina só a alegria de ver dezenas de resenhistas dando cinco estrelas para sua obra?), mas também pode ser um desastre. Afinal, nem todo livro vai ser amado, e livros vistos como ruins pela maior parte do público são lançados a todo momento. O que acontece, então, quando um autor mais sensível lê resenhas com críticas mais duras e impiedosas sobre o livro que ele demorou anos para escrever e publicar?

Barraco, minha gente, é o que acontece. Sério.

Até alguns meses atrás eu vivia na inocência de achar que o máximo de ruim que poderia acontecer na relação autores-leitores era a óbvia atitude passiva-agressiva de alguns escritores brasileiros (“ah, mas tem muita gente que só fala mal de nossos livros porque estão com inveja!”). Há alguns meses atrás, porém, finalmente decidi criar uma conta no GoodReads, e meu mundo virou, do nada, de cabeça para baixo.

Antes de eu explicar exatamente o porquê, deixe-me explicar uma concepção básica que existe (ou que deveria existir) entre autores e leitores: é uma péssima ideia o autor comentar em alguma resenha – ainda mais se for negativa – e é uma ideia ainda pior citar algum resenhista no Twitter ou em qualquer blog que o autor tenha, mesmo que seja para explicar que não, não foi isso que eu quis passar na minha obra. Por que essa concepção existe? Simples: o escritor, por mais desconhecido que seja, sempre terá mais gente para defendê-lo do que o resenhista. É como uma quebra de braço, apenas que o autor tem sua mão apoiada por dez vezes mais pessoas do que o resenhista, que pode acabar se ferrando bonito em casos assim. Há também outro aspecto: desde que não esteja atacando o autor como pessoa, o resenhista tem todo o direito de dizer o que achar da obra, mesmo que escolha usar uma linguagem mais rude e até mesmo cruel. Principalmente em sites como o GoodReads e o Skoob, que foram feitos justamente para se compartilhar opiniões sobre livros lidos.

Esclarecido isso, podemos passar para o primeiro caso que fez eu começar a entender como as coisas realmente são no mercado de livros: o caso da agente literária de Kiera Cass, autora de A Seleção.

A coisa toda começou quando uma resenha de A Seleção feita por Wendy Darling no GoodReads recebeu tantos likes que acabou no topo de resenhas da página do livro. A agente da autora, Elana Roth, decidiu falar sobre isso no Twitter. Saca só:

(Elana Roth, ER): Maldição, o GoodReads realmente precisa de um sistema melhor de filtração e de algorítimos sobre o modo como o site mostra as resenhas e as avaliações por padrão. Tão horrível.

(Kiera Cass, KC, em resposta a ER): Eu acho que é por likes e é fácil dar like em coisas cruéis. Tanto faz.

(ER, em resposta a KC): Aquela cadela no topo está realmente me irritando. Ela reclama antes de ler, lê pouco e então reclama de novo. Qual o caso dela?

(ER, ainda em resposta a KC): Eu acho que preciso ir e dar like em todas as resenhas positivas.
(ER, ainda em resposta a KC): Acabei de ir lá em todas as resenhas com 4 ou 5 estrelas e dei like nelas. 
(ER, ainda em resposta a KC): Nós deveríamos pedir ajuda a @KalebNation. Aparentemente não tenho mais clientes no GoodReads para pedir, porém. Estranho.
(KC, em resposta a ER): É, eu não sei o que está acontecendo. Mas estou pensando em dar like em algumas eu mesma. Talvez eu peça discretamente a alguns amigos para fazer o mesmo também. Nós temos grandes amigos.
(KC, em resposta a ER): É, minha lista de amigos no GoodReads é limitada. Hmm.
(KC): Em outras notícias: 6.000+ adicionamentos no GoodReads. Eu ADORO vocês, pessoal!

Sim, isso aconteceu. E sim, isso aconteceu no Twitter, uma rede social totalmente aberta, onde todo mundo pode ver Kiera Cass e sua agente Elana Roth planejarem manipular a ordem em que as resenhas no GoodReads são dispostas. Com o bônus de a Roth ainda ter chamado Wendy Darling de cadela.

A coisa explodiu a partir do momento em que Wendy Darling descobriu o que tinha acontecido e compartilhou no GoodReads o print acima, junto com outro, que mostrava pessoas anônimas deixando comentários não tão amigáveis na resenha dela. Ela, Wendy, escreveu um post no seu blog explicando o que tinha acontecido e como isso a afetou, mas para resumir: Wendy passou a ser atacada diariamente por anônimos e por supostos amigos da autora (que depois, assim como Elana Roth, pediu desculpas), entre estes uma autora independente já mal-afamada por ter atacado leitores* que publicou o que, segundo ela, seria o nome verdadeiro de Wendy Darling, sua foto, seu e-mail e informações sobre o trabalho de seu marido. Isso, obviamente, gerou mais uma rodada de “trolls” mandando mensagens não tão simpáticas para ela. Vocês podem imaginar o nível da coisa.

Isso tudo aconteceu no início de 2012 e, pelo que eu vi, foi o maior “escândalo” (decididamente não o único, como vocês vão ver depois) do ano no meio literário. Muita gente escreveu sobre isso na época (como você pode ver no segundo post feito por Wendy Darling). Enfim, foi o caos na Terra.

Mas não foi o começo, e muito menos o fim, das confusões entre autores e leitores em 2012. Aliás, muita coisa aconteceu bem no início do ano, que ficou conhecido como Os Primeiros Dias no GoodReads. Resumindo:

  • Dia 1: Kira escreveu uma pré-resenha negativa do livro Tempest, de Julie Cross. Dan Krokos, amigo de Julie Cross, foi na resenha reclamar. Depois, ele levou isso tudo para o Twitter, onde criou a hashtag #goodreadsslogan para criticar as pessoas (leitores, hm) do GoodReads que compartilhavam suas opiniões em resenhas, porque obviamente todas essas pessoas estariam na verdade atacando os autores. Vários outros autores se juntaram a ele. O único lado bom dessa história foi que Julie Cross agiu muito bem, não atacou ninguém e disse, super de boa, que a resenha de Kira não estava atacando-a de modo algum. Duh. (leia mais sobre esse caso aqui).
  • Dia 2: Flannery escreveu uma resenha do livro Froi of the Exiles, de Melina Marchetta, dando 3 estrelas para a obra (não foi nem uma estrela, gente, foram três). Danielle Weiller (outra autora) comentou na resenha dizendo que a resenha estava “tirando coisas do contexto” e que o fato de Flannery ter dado 3 estrelas quando sua resenha (segundo Weiller) indicava que ela queria dar 1 era cruel. Uh. (Depois de um tempo Weiller deletou os comentários na resenha de Flannery, mas você pode ler a partir da mensagem 48 lá na resenha para ter uma ideia de como a coisa foi).
  • Dia 3: Steph Sinclair escreveu uma resenha do livro Carrier of the Mark de Leigh Fallon e depois de algum tempo recebeu um e-mail escrito por Fallon para outra pessoa que não Sinclair onde a autora a chamava de vaca e cadela, e ainda pedia aos seus amigos para darem um yes nas resenhas positivas de seu livro no Amazon. Fallon acabou pedindo desculpas e disse que tinha mandado aquele e-mail para dois amigos, mas todo mundo ficou meio desconfiado porque você obviamente precisa de mais de dois amigos para fazer as resenhas positivas subirem no Amazon e/ou GoodReads. Well. (leia mais sobre esse caso aqui).
  • Dia 4: Sophie escreveu uma resenha do livro Beautiful Disaster de Jamie McGuire. Fãs do livro a atacaram nos comentários. McGuire acaba então escrevendo um post em seu blog sobre isso, para depois apagar. McGuire vai também ao Twitter. Lembra da quebra de braço? Bem isso.

*A autora independente e mal-afamada que vazou as informações pessoais de Wendy Darling é Melissa Douthit, que acabou banida do GoodReads por criar 27 contas fantasmas para assediar resenhistas e dar like em resenhas positivas dos livros delas (e de seus amigos, provavelmente). Sweet.

Não, isso não foi tudo o que aconteceu em 2012. Muito mais aconteceu, na verdade. Mas chega de falar do passado; vamos falar de casos recentes, certo? Certo. Dois aconteceram bem recentemente.

Primeiro, o mais chocante. Em 26 de setembro, Paige Rolland publicou uma resenha das primeiras páginas de The World Rose, de Richard Brittain. Brittain já era famoso no Wattpad por ser um, hm, babaca. Vale mencionar que The World Rose foi publicado de modo independente. Enfim, dias após Rolland ter publicado sua resenha, ela foi atacada por Brittain (que mora em Londres) em seu local de trabalho (na Escócia!) com uma garrafa de vinho na cabeça, por trás. Ela foi hospitalizada, mas já prestou queixa e aparentemente Brittain vai acabar internado por problemas mentais.

Segundo, o que repercutiu mais. Kathleen Hale, autora de No one else can have you teve um artigo publicado no The Guardian onde ela relatou como perseguiu uma resenhista que deu apenas uma estrela para seu livro. No artigo, Hale conta como literalmente ficou de olho nas redes sociais de Blythe Harris após ter visto a resenha dela, como chegou a pedir o endereço de Harris a um blog que estava organizando um book tour de seu livro dizendo que ia lhe mandar um presente, como foi até a casa de Harris, como desistiu de bater na porta dela, como descobriu que Blythe Harris não é nome verdadeiro da mulher que escreveu a resenha de seu livro e como ligou para o trabalho dela para tentar conseguir mais informações. Hale meio que tenta justificar ter perseguido Blythe Harris com o fato de que Blythe Harris não existe, como se usar um nome diferente – e até uma idade diferente – para resenhar livros fosse um crime. Mas, surpresa!, não é.

(Se fosse eu seria presa, oops. Nunca cheguei a dizer ter uma idade diferente da minha real, embora já tenha omitido-a para ser levada a sério – comecei a participar de discussões em fóruns sobre livros com 13 anos quando todo mundo já estava ou terminando o ensino médio ou na faculdade ou trabalhando, então né -, mas acho que nunca cheguei a usar meu nome verdadeiro, e já mudei de nome várias e várias vezes.)

O artigo de Hale rendeu muito, e ainda está rendendo. Rendou uma hashtag no twitter (#HaleNo), um blog blackout (vários blogs grandes estão suspendendo suas atividades por uma/duas semanas em protesto), e vários posts, cartas e artigos em resposta ao publicado pelo The Guardian (exemplo). Em resumo, todo mundo está revoltado com o fato de que um jornal como o The Guardian achou que seria uma boa ideia publicar um artigo sobre uma autora stalker. E, para piorar, com o fato de que tem gente apoiando-a.

Há outros casos, é claro. Muitos, acontecendo quase o tempo todo. Alguns, porém, saem da esfera de relação entre autor-leitor e vão além, para a personalidade e os feitos dos autores longe de seus livros. Como o fato de que os filhos de Marion Zimmer Bradley, autora consagrada de As Brumas de Avalon que faleceu em 1999, disseram recentemente que a mãe abusava deles. Não foram poucos os posts sobre essa revelação (sério), que foi um choque. MZB é ainda hoje muito aclamada, muito famosa, e seus livros são adorados por muitos. Mas, depois dessa, saíram de modo permanente da minha lista de leitura.

Outro cujos livros estão praticamente excluídos da minha lista de leitura é Orson Scott Card, autor de Ender’s Game, filme que eu adorei e que me fez ficar saltitante de vontade de ler o livro no qual foi baseado. Mas Card é um homofóbico que vem lutando contra os direitos dos homossexuais há anos. E, feliz ou infelizmente, eu não conseguiria ler Ender’s Game, cuja mensagem, pelo que eu vi no filme, é justamente a de aceitar e entender o diferente, sabendo que o autor faz tudo menos isso. Acaba sendo hipocrisia demais para mim.

Separar o autor da obra é muito difícil, tanto em casos como o de Kathleen Hale, Kiera Cass/Elana Roth e Leigh Fallon quanto em casos como o de Orson Scott Card e Marion Zimmer Bradley. Eu, pessoalmente, não consigo. Talvez parte disso se deva ao fato de que eu sou (ou quero ser) escritora; jamais conseguiria me separar da histórias que quero escrever e, portanto, não consigo e nunca conseguirei abrir Ender’s Game e ler uma história magnífica sobre respeitar o diferente (com toda a parte legal de ser um livro de ficção científica) sabendo que tudo ali não passa de uma mensagem oca de um escritor hipócrita. Não sou apenas assim com livros; se descubro que certa banda é feita de babacas, não consigo mais ouvir as músicas, por exemplo. Estou até mesmo considerando largar de vez Shingeki no Kyojin, um anime que eu adoro, porque o autor disse que um dos personagens, Dot Pixis, foi inspirado em um general japonês que lutou em duas guerras (uma contra a Rússia, outra contra a China) para manter a Coreia sob domínio do Japão e que ele o respeitava pela vida frugal que esse general levava. O problema é que, sob o nome desse general, garotas coreanas foram estupradas e homens coreanos foram feitos de escudos humanos e objetos de tortura. Quando fãs coreanos do anime reclamaram sobre isso, ele disse que o que o Japão fez com a Coreia não pode ser comparado com o Holocausto porque a vida dos coreanos (e dos chineses) melhorou “graças” ao Japão, mesmo que essa “melhora” tenha significado a morte de centenas (ou milhares) e tenha abrigado uma tentativa de apagar a cultura coreana. Ou seja, o cara é um babaca. E por mais que SnK seja um dos melhores animes que eu já vi (e um dos mangás que eu mais quero ler), não dá pra mim. Não rola mesmo.

Sei que a maior parte das pessoas que me seguem aqui [no tumblr] é feita de escritores, então achei que esse seria um bom tópico para se discutir. Vocês conseguem separar o autor da obra? Leriam algum dos livros aqui citados mesmo sabendo que o/a autor/a fez o que fez? Ou continuariam lendo as histórias, isolando-as das pessoas que a escreveram? E como agiriam caso algum livro seu recebesse essas resenhas negativas?

É algo que se vale a pena pensar.

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