Resenha: Luck in the Shadows, Lynn Flewelling

Luck in the Shadows
Nightrunner #01
Lynn Flewelling
Skoob
★★★★☆

Quando o jovem Alec de Kerry é feito prisioneiro por um crime que não cometeu, ele tem certeza de que sua vida está chegando ao fim. Mas uma coisa que ele jamais esperava era seu companheiro de cela. Espião, ladino, ladrão e nobre, Seregil de Rhiminee é muitas coisas – e nenhuma delas é previsível. E quando ele oferece tomar Alec como seu aprendiz, muitas coisas podem nunca mais ser as mesmas para ambos. Logo Alec se vê viajando por estradas que ele nunca soube que existia, em direção a uma guerra que ele nunca suspeitou estar se aproximando. Em pouco tempo ele e Seregil acabam entranhados em uma trama sinistra que corre mais fundo do que eles podem imaginar, e que pode custá-los muito mais do que suas vidas se ambos falharem. Mas a fortuna é tão imprevisível quanto o novo mestre de Alec e dessa vez pode apenas ser… Sorte nas Sombras.

Eu estava em dúvida entre dar 3.5 ou 4 estrelas para esse livro, mas o fato de eu ter o terminado após penar para acabar O Poder da Espada me fez perceber algumas qualidades da história e dos personagens que antes eu não tinha notado. Então sim, Luck in the Shadows merece e muito essas quatro estrelas.

Vou monologar um tanto mais nessa resenha, então paciência comigo, certo? Certo.

Bem, eu acho que, geralmente, há dois tipos de livros, ao menos quando se trata de fantasia; existem, primeiro, aqueles que prometem sacudir o gênero com seu worldbuilding original, seus personagens complexos e seu plot incrível. Esses são, na minha opinião, os mais perigosos, mas também os que mais vale a pena arriscar uma leitura. Se bem feitos, eles podem facilmente se tornar seu livro preferido ou pelo menos ficar bem alto no seu top 10, mas se a coisa desandar… Bem, aí é decepção em dobro.

O outro tipo é aquele que não promete muito. Nada de plot ou worldbuilding que vá mudar a fantasia que a conhecemos, mas se tivermos sorte talvez encontremos personagens cativantes e uma história divertida. É claro que esses também podem acabar sendo rasos, infantis e vagos demais; cada um dos dois tipos, obviamente, oferece suas qualidades e seus defeitos.

Eu amo o primeiro tipo de livro. Adoro worldbuildings elaborados e plots cheios de voltas e mais voltas, com personagens tão complexos que imaginá-los como pessoas reais não é difícil. Na maior parte do tempo, leio fantasia por livros assim e, infelizmente, me decepciono vezes demais para se contar. Acho que o maior problema desses tipos de história é justamente o que elas prometem e o que entregaram, que muitas acabam sendo coisas bem diferentes e, portanto, quase me matam de frustração. É como se o autor tentasse dar um passo maior do que a própria perna (o que ocorre principalmente quando é um livro de estreia) e acabasse tropeçando e quebrando a cara. Acontece toda hora e, apesar de, como já disse, eu amar esse tipo de livro, muitas vezes me vejo mais satisfeita ao ler o segundo. Repetindo, é um problema de prometer e não entregar, e geralmente essas histórias mais simples entregam o que prometem com mais frequência. É por isso que eu adoro livros como Rangers – Ordem dos Arqueiros e até mesmo Percy Jackson e os Olimpianos, mesmo que muitos os achem infantis e simples demais, e odeio ou desgosto de obras tão consagradas quanto O Poder da Espada, TiganaMistborn, Prince of Thorns  ou A Espada de Shannara. Promessas não cumpridas fazem toda diferença.

Luck in the Shadows pertence ao segundo grupo e, felizmente, entregou quase tudo do que prometeu. Peguei esse livro porque o GoodReads indicou como fantasia com personagens LGBT, e, como já mencionei várias vezes, ando garimpando obras assim por aí, geralmente me decepcionando bastante. Veja bem, na maior parte das vezes livros de fantasia LGBT são basicamente romance com fantasia como pano de fundo, e eu odeio isso com a intensidade de mil sóis em combustão. Romance nunca é meu foco nos livros que leio, não importa o gênero e não importa se é hétero/homo ou o diabo que for, eu simplesmente quase nunca pego um livro para ler se romance for indicado como a coisa mais importante da história. Não é meu tipo de leitura, apesar de eu adorar um romance como subplot de vez em quando, e talvez por serem mais voltados para garotas (desculpem, meninos, mas meninas geralmente aceitam personagens – ou pessoas – LGBT melhor), essas fantasias LGBT sempre acabam focando demais no romance. Então não é muita surpresa eu não ter conseguido passar da página 50 da maior parte dos livros desse tipo que tentei ler.

Uma coisa: ao contrário do que o GoodReads quer fazer você acreditar, Seregil e Alec não são gays; são bissexuais, já que ambos mostram interesse em algumas mulheres durante a história. Só esclarecendo esse detalhe mesmo.

Enfim, o romance de Luck in the Shadows é praticamente inexistente. Há umas poucas pistas de que algo pode vir a acontecer em volumes posteriores, mas mesmo assim estas são bem raras e só começam a aparecer bem no final, quando o livro já está pra lá de adiantado. O plot, graças aos deuses, os antigos e os novos, é o foco do livro, e é um plot melhor do que eu esperava, para ser bem sincera. Aqui no primeiro volume ele parece ser algo até simples, mas há algumas indicações de que algo muito maior está por vir. Afinal, Luck in the Shadows é o primeiro de uma série de, surpresa, sete livros, então ele é mais uma introdução mesmo.

Como eu disse lá em cima, Luck in the Shadows pertence aos livros que não prometem tanto, e essa é a mais pura verdade. Não tente começar a ler esse livro esperando coisas muito inovadoras quanto a worldbuilding não, por exemplo. O mundo da série apresenta a já conhecida sociedade medieval com magia, possíveis dragões, elfos (Aurenfaie é o nome que a autora dá para os “elfos” dela, mas cacete, eles são elfos e ponto final) e um inimigo ainda não identificado que pode ou não ser algum bicho das trevas. Temos um ainda mais conhecido mestre/orientador, que é obviamente um mago (e não, não estou falando de Seregil), temos um objeto amaldiçoado, temos um grupo viajando por aí, etc, etc, etc. Como podem ver, nada diferente do usual; o que me conquistou mesmo foi o modo com que a Flewellyng usou essas tropes.

O mago/mestre, por exemplo, o Nysander, tem uma amante que não é, nem de longe, a primeira e provavelmente não vai ser a última. O relacionamento dele com ela é bem livre e eles não se esquentam muito com isso de compromisso não. Seregil, o suposto aprendiz de Nysander, é uma tragédia com magia, mas uma tragédia tão grande que acabou tendo que desistir da ideia de ser um mago, e hoje trabalha com Nysander por outros motivos. Um dos reinos dessa sociedade medieval, Skala, só pode ser ser governado pelos herdeiros de seu primeiro rei, o que já é algo bem batido, mas surpresa!, esses herdeiros só podem ser mulheres e, portanto, o reino só pode ter rainhas. Nesse reino várias mulheres – incluindo as princesas – são guerreiras, mas em quase momento algum isso é apontado ou destacado como algo diferente. Skala não é lá tão neurótico com relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo também não, ao contrário dos países do norte, que meio que não admitem a existência disso (culturas diferentes é uma benção em livros de fantasia, sabe?). O amuleto amaldiçoado serve para algo além de tornar um certo personagem uma pessoa perigosa por um certo período de tempo; uma boa parte do que acho que vai acontecer nos próximos volumes veio das “visões” que esse amuleto provocou, e ele serviu também para desenvolver melhor o personagem e contar um pouco sobre seu passado. O grupo viajando por aí não está exatamente em uma missão – pode-se dizer que estão querendo voltar para casa e, após alguns acontecimentos, fugir. Então, como dá pra perceber, há muito do “mesmo de sempre” nesse livro, mas é um mesmo de sempre diferente, e eu adorei esse aspecto.

Luck in the Shadows foi como uma brisa fresca após o mormaço que foi O Poder da Espada (vou continuar mencionando esse livro de vez em quando nas minhas resenhas. O bicho me traumatizou, sinto muito). Primeiro porque o romance de Luck in the Shadows é muito melhor e boa parte disso se deve ao fato de que, tada!, ele ainda não existe. Sinceramente, ando meio cansada de romance em qualquer tipo de livro (fantasia e YA são os grandes culpados), já que eles acontecem super rápido e sem qualquer base, só para o autor poder dizer, olha, romance!, mas, novidade, gente, relacionamentos demoram para se desenvolver! Principalmente quando vocês tentando salvar ou sua pele ou o mundo! Sei que é difícil de acreditar, mas é verdade, te garanto. (Autores por favor parem de incluir romance só porque vocês acham que livro sem romance não vende, por Deus. Tirem o romance de vez, se vocês verem que não vai dá pra fazer a coisa direito. Cristo.).

Segundo, três vivas para mulheres bem representadas em um livro de fantasia! Li nove livros de fantasia fantasia (sem ser YA) esse ano e Luck in the Shadows é o segundo a ter mulheres bem representadas. O segundo (!!!). O livro foi publicado em agosto de 1996 (oops, sou quase seis meses mais velha que ele apenas), há 18 anos, e mesmo assim representa mulheres melhor do que a maior parte dos livros publicados hoje em dia. Autores que estão lançando livros agora, acordem.

Geralmente fantasias mais antigas me decepcionam muito com relação à construção dos personagens, mas os de Luck in the Shadows são ótimos, mesmo que nesse volume a autora tenha focado bem mais no Seregil e no Alec, o que é uma pena já que alguns personagens secundários parecem ser bem interessantes. Meu preferido acabou sendo o Seregil mesmo, que é bem engraçado e tem umas tiradas ótimas.

Por que então você deu quatro estrelas e não cinco para esse livro, se gostou tanto?, vocês podem estar se perguntando. Bem, é porque há alguns defeitos em Luck in the Shadows. Alguns diálogos, principalmente no início, foram meio que infodumps, o que, por mais que talvez tenha sido necessário, me irritou um pouco. Muitos poderiam ter sido evitados ou pelo menos feitos de modo mais sutil, na minha opinião.

E o meio… Jesus, o meio é muito, muito lento. Foi um momento de transição na história e por isso é meio compreensivo ele ter sido assim, mas a coisa estava andando a passo de tartaruga e por um momento eu até considerei por a leitura de lado por uns tempos antes de continuar. Não era exatamente chato, mas não era empolgante, sabe? Eu imaginava que a diversão voltaria em algum momento das próximas páginas, mas me arrastar até lá se provou uma tarefa e tanto. Depois de alguns capítulos, porém, as coisas voltaram a ficar interessantes, mas né, o meio foi um leão que precisei matar e não dá para não mencionar. E, como eu disse, os personagens secundários ficaram um pouco negligenciados durante boa parte do livro, e mesmo que eu tenha gostado deles o suficiente isso ainda é uma falha na história, mas não estou tão preocupada assim com esse aspecto não. Luck in the Shadows foi o primeiro livro da Flewelling, lançado há 18 anos, mas o último da série, Shards of Time, saiu ano passado, então a autora deve ter tido muito tempo para melhorar as poucas falhas de sua escrita e para desenvolver os outros personagens. Pelo menos foi o que vi o pessoal dizendo em várias resenhas, então tenho esperanças.

Enfim, Luck in the Shadows foi uma leitura agradável e divertida, portanto recomendo para quem não está procurando a saga mais incrível do gênero e quer apenas se descontrair um pouco. Pretendo começar o segundo volume após ler alguns livros da minha lista, mas não tenho tanta pressa porque, bem, sete livros, e eu sou uma maria preguiça para séries longas. Se o livro 2 for tão bom quanto o primeiro, porém, terminarei a série sem dúvida alguma. Pelo menos por enquanto ela vale a pena.

 

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