Rants literários: Literatura YA e a cultura de estupro

Quando falamos da teoria, eu gosto muito de livros Young Adult.

Veja bem, na teoria YA é um gênero ótimo: é sobre histórias de jovens se tornando adultos, naquela já familiar fórmula do rito de passagem, e isso, é claro, deveria servir para que pessoas como eu (no auge dos 18 anos e, portanto, uma jovem se tornando adulta) se identificassem com a coisa toda. Segundo especialistas, ter esse tipo de livro por aí pode ajudar e entreter muitos jovens que não sabem o que diabos querem fazer da vida ou quem são, já que neles os protagonistas estão praticamente no mesmo barco (mesmo quando “descobrir quem são” envolve o protagonista descobrindo que é algum tipo de criatura mística, o que seria, portanto, uma espécie de metáfora para a vida adulta). Então sim, YA, na teoria, é um gênero maravilhoso.

Mas na prática não. Principalmente quando os livros são voltados para garotas.

Não sei se o problema começou com Crepúsculo, mas acho que podemos dizer sem hesitar que a obra de Stephenie Meyer certamente o levou às alturas. O problema? Simples: o interesse romântico sendo um stalker (perseguidor) e controlando tudo na vida da protagonista enquanto ela acha tudo isso ótimo. Em outras palavras, cultura de estupro.

A cultura do estupro é um ambiente em que o estupro prevalece e no qual a violência sexual contra mulheres é normal e justificado na mídia e na cultura popular. A cultura do estupro é perpetuada através do uso da linguagem misógina, da visão do corpo da mulher como objeto e da ‘glamourização’ da violência sexual, criando assim uma sociedade que desrespeita a segurança e direitos das mulheres. (x)

Os livros YA para garotas usam (e usam muito) principalmente essa última parte – a glamourização da violência e o desrespeito a segurança e direitos das mulheres. E para quem não sabe:

Misoginia (do grego μισέω, transl. miseó, “ódio”; e γυνὴ, gyné, “mulher”) é o ódio, desprezo ou repulsa ao gênero feminino e às características a ele associadas (mulheres ou meninas). (x)

Crepúsculo é uma propaganda da cultura de estupro porque mostra uma mulher – Bella – em uma relação abusiva com um homem – Edward -, tal relação sendo abusiva porque ele a) controla tudo na vida dela, tomando todas as situações e isolando-a de sua família b) invade seu espaço pessoal e c) a amedronta diversas vezes, e isso tudo é visto como algo ótimo e aceitável. Tão aceitável que Bella entra em uma espécie de estupor depressivo depois que Edward a deixa em Lua Nova, mostrando (não que houvesse alguma dúvida) que ela está sim apaixonada por ele.

Não chego a dizer que livros como Crepúsculo ensinam garotas que tal comportamento é normal. Acho que o problema é outro e, nesse sentido, tais obras são até mesmo necessárias. São necessárias porque Crepúsculo não induz garotas a pensarem que é normal um cara invadir o quarto delas para observá-las dormindo ou que é normal um cara tomar todas as decisões por elas ou lhes dizer o que fazer; Crepúsculo mostra que a cultura de estupro está tão entranhada na nossa sociedade que milhões de garotas conseguiram ver em Edward um cara ideal como namorado, conseguiram enxergar esse comportamento controlador e agressivo como algo desejável simplesmente porque ele, o interesse romântico, é bonito. Ou seja, a coisa toda é muito mais complicada do que parece.

Outro exemplo de livro YA que perpetua a cultura de estupro é Sussurro de Becca Fitzpatrick. Nele Nora, uma adolescente normal que nunca se apaixonou na vida, cai de amores por Patch, o já manjado garoto misterioso, mesmo depois de ela ter provas concretas de que ele a perseguia. Acho que Sussurro consegue ser ainda pior que Crepúsculo porque ele meio que percebe que há algo de errado no modo com que Patch se aproxima de Nora – vários personagens fazem piadas sobre ele a estar perseguindo -, mas mesmo assim ela se apaixona por ele e os dois iniciam um relacionamento.

Em Sussurro, Nora passa uma boa parte do livro morrendo de medo de Patch, que acaba como seu parceiro nas aulas de biologia já no primeiro capítulo. Ela se sente desconfortável em sua presença e até chega a pedir ao professor que a mude de lugar, mas o professor não lhe dá o mínimo de atenção e diz que eles só precisam se conhecer melhor, colocando-a então como tutora dele, já que Patch é novo na escola. A ideia passada aqui? Mais uma vez, simples: se tem um garoto te incomodando na sala de aula você na verdade só está sendo fresca. É melhor ficar quieta enquanto ele te amedronta e te deixa desconfortável, porque garotos são assim mesmo, então para que se incomodar?

Nora chega a pedir para Patch para que ele fale com o professor para mudá-lo de lugar, porque, obviamente, um garoto pedindo vai ter muito mais impacto do que a garota (mensagem da vez: quando garotas reclamam, elas só estão sendo frescas – é, de novo -, mas quando garotos o fazem é porque existe um problema mesmo). Patch não pede e ainda lhe dá uma resposta sarcástica (se me lembro bem é algo nas linhas de por que eu deveria? ou algo assim). Então Nora é obrigada a ficar na presença de um cara que, de novo, a faz ficar desconfortável e que a deixa com medo. Ah, e tal cara é supostamente o par romântico dela na história, não se esqueçam.

Sussurro ainda suporta a cultura de estupro de outro jeito: durante boa parte do livro Nora fica tentando rejeitar a presença e os avanços de Patch, mas sempre fica preocupada com a possibilidade de estar sendo mal-educada ou rude com ele. Mensagem da vez: se você, garota, não está afim de um cara e quiser colocar algumas barreiras entre você e ele você está na verdade sendo rude. O normal é você desistir de vez de dizer não e dizer sim só para que ele possa te deixar em paz depois (isso se você não acabar morta e/ou estuprada). Se o cara te ameaçar por você ter dito não ou mesmo chegar a te assaltar de algum modo, a culpa é sua por ter sido tão difícil (afinal, não custava nada ter aceitado o cara, né? Pois é).

Como eu disse lá em cima, apesar disso tudo, Nora se apaixona por Patch. É como dar o golpe de misericórdia em um moribundo. O cara pode te tratar como lixo, te deixar com medo e te deixar desconfortável (ou mesmo tentar matar você), mas no final não adianta resistir porque você vai se apaixonar por ele. É normal. Sabe essa agressividade? É tudo amor disfarçado, é claro. O cara na verdade tem um coração de ouro. Obviamente.

Tá certo.

Enfim, indo para o nosso terceiro exemplo, Fallen de Lauren Kate. Esse ainda tenta dar uma explicada – a protagonista, Luce, pode ser tratada como lixo pelo interesse romântico, Daniel, porque na verdade eles já se apaixonaram em vidas passadas inúmeras vezes, então meio que não tem problema o Daniel ser um babaca com ela porque algo nela se lembra das vidas passadas em que ele foi (literalmente) um anjinho com ela.

Na primeira vez em que Luce o vê nessa encarnação, Daniel mostra o dedo do meio para ela do nada (é, cara, do nada mesmo) e vai embora. Qual seria a reação de qualquer pessoa normal ao ver alguém que você nunca viu na vida te mostrando o dedo do meio e indo embora sem mais nem menos? Ficar revoltado, é claro. Ofendido. Xingar o infeliz até que orelha dele pegue fogo. Se você tiver um temperamento mais inflamável, ir atrás dele e exigir satisfações. Tudo isso é plausível.

Luce invade a sala de documentos da escola dela para saber mais sobre Daniel porque ela simplesmente tem que saber mais sobre o cara que mandou um dedo do meio para ela na primeira vez em que eles se viram e que depois continuou tratando-a como lixo.

É, eu sei. Muito lógico.

Como se isso não fosse o bastante, Luce passa o resto do livro correndo atrás de Daniel enquanto ele não responde nenhuma das perguntas delas (ela, sendo a garotinha que é, não entenderia, obviamente) e esse comportamento (aguardar pacientemente enquanto o cara do seus sonhos te trata mal – porque é claro que ele não é assim de verdade – porque no final ele vai te explicar tudo. Você só tem que ficar quieta) é visto como amor verdadeiro.

O livro ainda tenta fazer de Daniel um personagem sofrido e cheio de angst porque ele foi obrigado a ver o amor da vida dele – ha ha ha – morrer toda vez em que os dois se beijavam. Mas eu me recuso a acreditar que sou a única que vê como lado perdedor aqui a garota que morre jovem o tempo todo porque Daniel tem hormônios demais para se manter longe dela. Se ele queria tanto não vê-la morrer, se ele a ama de verdade, não seria mais lógico ir para o outro lado do mundo enquanto ela vive?

Para Daniel obviamente não.

O último exemplo desse post é Para Sempre de Alyson Noël (curiosidade: junte o plot de Para Sempre com o de Sussurro que você acaba com o de Fallen. Curioso, né?). Para Sempre não traz nada de novo para a mesa quando o assunto é a perpetuação da cultura de estupro: como em Sussurro, a protagonista, Ever, não vai muito com a cara do nosso querido interesse romântico, Damen, mas ele insiste tanto que ela acaba aceitando a atenção e – surpresa! – os dois se apaixonam. Esqueça o fato de que Damen mente para ela, não lhe passa informações importantes (ela, sendo a garotinha que é, não entenderia, obviamente) e no geral é um péssimo namorado. Mas Ever ainda o ama – por motivos que sinceramente não consigo entender.

Ah, sim. Porque ele, assim como Edward, Patch, Daniel e tantos outros, é o interesse romântico. A protagonista vai se apaixonar por ele, já está certo desde a página um. É por isso que temos que deixar de lado as falhas óbvias de caráter deles (se qualquer um deles fosse um segundo par romântico que obviamente vai ser a ponta solitária do triângulo eu aposto que não seria o “certo” gostarmos deles) e se concentrar no fato de que eles são lindos de morrer. E no fato de que eles amam a protagonista – que por acaso não passa de Mary Sue sem o menor rastro de personalidade, o melhor modo de se inserir na história. Simples, né?

Como eu disse lá em cima, esses livros não ensinam a garotas que é normal se apaixonar por um cara agressivo, insistente e stalker. Eles mostram que nós, garotas, já achamos normal isso acontecer. É por isso que CrepúsculoSussurroFallen Para Sempre fizeram tanto sucesso; Bella, Nora, Luce e Ever são exatamente como tantas garotas por aí e também acham normal se apaixonar por esses caras. Isso é identificação na sua forma mais simples.

A cultura de estupro é tão invisível e tão “normal” na sociedade de hoje que quando li esses livros pela primeira vez, anos atrás, não notei nada disso. Não notei que Nora estava errada ao se preocupar em ser gentil e educada com um babaca que vivia aterrorizando-a, não achei estranho Luce ir atrás de um cara que a tratou mal, não franzi o cenho quando Bella entrou em transe quando Edward foi embora ou quando ele a isolou de todos seus amigos e de sua família, não me incomodei com Damen insistindo em fletar com a Ever mesmo quando ela claramente não o queria, não achei nada disso estranho. Por quê? Porque eu também faço parte da cultura de estupro. Por muito tempo esperar esse tipo de comportamento de garotos foi normal para mim. É o velho boys will be boys tão entranhado no nosso modo de pensar que nós não notados quando somos tratadas como lixo pelo cara bonitinho da aula de biologia. É por isso que eu vi tantos garotos zoando as garotas que adoravam Crepúsculo; eles viam o que havia de errado, mesmo que não de modo consciente, e achavam tais garotas umas idiotas por ficarem todas derretidas por um cara como Edward.

Isso quer dizer que a culpa é das garotas? Desculpe, garotos, mas não. É culpa da cultura de estupro. Nós fomos criadas assim e estamos criando as meninas à nossa volta do mesmo jeito. Quando se cresce com a ideia de que é normal o garoto fazer algumas besteiras de vez em quando  é isso que acaba acontecendo. Quantas vezes já não ouvi um adulto dizendo para uma menina que está tudo bem, querida, garotos são assim mesmo quando algum menino a aborrecia de algum modo? Dezenas e dezenas de vezes. A culpa, na verdade, não é de Stephenie Meyer, Becca Fitzpatrick, Lauren Kate ou Alyson Noel ou de suas respectivas obras. É da cultura de estupro e, portanto, de todos nós.

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