Resenha: Prince of Thorns, Mark Lawrence

Prince of Thorns
Trilogia dos Espinhos #01
Mark Lawrence
Skoob
★☆☆☆☆

Tem início a Trilogia dos Espinhos: Ainda criança, o príncipe Honório Jorg Ancrath testemunhou o brutal assassinato da Rainha mãe e de o seu irmão caçula, William. Jorg não conseguiu defender sua família, nem tampouco fugir do horror. Jogado à sorte num arbusto de roseira-brava, ele permaneceu imobilizado pelos espinhos que rasgavam profundamente sua pele, e sua alma. O príncipe dos espinhos se vê, então, obrigado a amadurecer para saciar o seu desejo de vingança e poder. Vagando pelas estradas do Império Destruído, Jorg Ancrath lidera uma irmandade de assassinos, e sua única intenção é vencer o jogo. O jogo que os espinhos lhe ensinaram.

Essa é a segunda resenha que faço desse livro. Na primeira não consegui expressar muito bem o porquê dessa história me dar nos nervos, mas agora, depois de um ano desde que a li, posso finalmente colocar em palavras o meu, hm, desprezo, pela obra de Mark Lawrence.

Vou logo dizendo que eu esperava muito desse livro. Tipo, muito mesmo. Foi o primeiro (e até agora infelizmente o único) livro da editora DarkSide Books que comprei, e a edição é simplesmente maravilhosa. Acho que já devem ter lido isto em outras resenhas, mas só para reforçar: a editora fez um trabalho excelente com Prince of Thorns. Pena que a história não chega nem perto de ser tão boa quanto a embalagem em que ela é vendida.

Meu problema com Prince of Thorns foi a cena de estupro. Sim, tem uma cena de estupro. Na verdade ela não passa de um parágrafo, se eu me recordo bem, e acontece bem no início. Acho que Lawrence deu um tiro no próprio pé quando a colocou nos primeiros capítulos, falando nisso; depois dela, qualquer conexão minha com a história foi cortada sem dor nem piedade.

Eu já li várias e várias entrevistas com o autor e ele sempre diz que seu protagonista, Jorg Ancrath, irá chocar muitos e que “não é para qualquer um”. Sendo bem sincera, acho que ele usa a desculpa de que o Jorg é um anti-herói para tornar tudo o que ele faz “aceitável” ou, no mínimo, esperável. E, me desculpe, mas isso não cola comigo não. Eu adoro muitos e muitos anti-heróis, principalmente em animes (Lelouch de Code Geass, Vincent dePandora Hearts, Alone de The Lost Canvas são apenas alguns exemplos), então não foram as morais meio distorcidas do Jorg que me fizeram odiá-lo. Quem conhece o Lelouch, o Vincent e o Alone sabem muito bem que eles matam a torto e a direito, e que muitas vezes são pura e simplesmente cruéis, mas ainda assim acho-os personagens fascinantes e torço por eles. Mas com Jorg eu não consegui fazer isso, e o problema todo foi o uso de plot devices ridículos que tentavam, desesperadamente, transformá-lo em um personagem cruel e sem escrúpulos, mas interessante. Lawrence, para mim, falhou miseravelmente nesse quesito.

Eu não sou contra o uso de estupro, assassinato e outras coisas “feias” em uma história (afinal, histórias refletem o nosso mundo e nosso mundo é assim, certo?), mas o uso do estupro em especial tem que ser feito com muito cuidado. Eu sou mulher e digo sem hesitar que preferiria morrer a ser estrupada e, acredite, não sou nem de longe a única a pensar desse jeito. Então ler um protagonista – um pirralho de 13 ou 14 anos se não me engano – estuprar garotas de fazenda antes de atear fogo nelas foi uma das minhas experiências mais frustrantes como leitora. Não exatamente pela ação em si (o protagonista é seu e você faz o que quiser com ele, Lawrence), mas sim pelo pouco caso com que a coisa toda foi tratada. Foi como colocar letras garrafais em neon brilhante apontadas para o Jorg formando as palavras, esse é meu protagonista cruel, diferente e que choca as pessoas com sua maldade!!! Olha como ele é terrível!!! Todos devem se chocar com meu anti-herói!!!

Resumindo, caracterização pobre, barata e inconsequente. Sabe por que inconsequente? Porque eu já perdi a conta de quantas vezes vi alguém que tenha lido Prince of Thorns dizendo coisas como, o Jorg é foda! ou o Jorg é badass! e isso sinceramente me faz questionar a fé que tenho na humanidade. Porque essas pessoas estão chamando um estuprador de “foda” e “badass” com admiração, e isso faz meu estômago revirar.

Mas então, você deve estar pensando, você está dizendo que matar está liberado, mas estuprar não?, e sim eu estou dizendo basicamente isso, sendo bem sincera. Sabe por quê? Porque ao matar alguém você, bem, acaba com a pessoa. Ela já era, já foi, não pode sentir ou fazer mais nada. Quem sofre não é quem morre; é quem fica, são os amigos e família da pessoa que morreu, não ela. Mas quando você estupra alguém a pessoa continua viva, e muitas vezes se arrepende disso. Estupro, para mim, é pior que a morte porque ser estuprada pode fazer vocêquerer estar morta, e há pouquíssimas coisas que eu considero piores do que desejar acabar com sua própria vida. Estupro pode te matar por dentro e, por isso, para mim é mil vezes pior do que morrer de verdade.

Acho que posso concluir então que meu problema com Prince of Thorns não é sequer a cena de estupro. É a ideia que a obra passa; a de que é normal você admirar alguém que cometeu tal ato, que é normal você torcer por essa pessoa simplesmente porque ela é a protagonista. Acredito que o autor poderia ter evitado isso se ele tivesse se esforçado um pouco mais, até porque não é crime nenhum contar a história de um pirralho babaca que se acha demais e que estupra garotas de fazenda. O que deveria ser crime é implicar que isso tudo é explicável pelo fato de que o tal garoto babaca é um anti-herói. Ou usar violência a torto e a direito para chocar simplesmente porque você não consegue caracterizar bem seu garoto babaca que estupra garotas de fazenda.

Então resumindo mais uma vez: não me importo com violência em livros, filmes, animes ou o diabo que for, desde que ela não seja usada para substituir uma caracterização séria e eficiente (ou seja, desde que não seja usada apenas para chocar), ou quando o autor/diretor/whatever tenta justificar sua presença dizendo que o personagem é assim mesmo (o que mais uma vez indica uma caracterização fracassada, já que você não deveria ter que me dizer que tal personagem é um anti-herói com morais distorcidas se tivesse feito um bom trabalho na sua obra). Simples assim.

Acho que eu até poderia ter continuado a ler a Trilogia dos Espinhos se a história fosse interessante. Sabe quando você lê algo mesmo odiando o protagonista porque o resto vale a pena? Então, essa poderia ter sido minha relação com essa história. Mas não pude continuar porque o resto, surpresa!, não vale a pena. Os personagens secundários são unidimensionais e chatos, a escrita é rasa, o final tem um senhor deux ex machina e mesmo que o Jorg não fosse um pirralho estuprador ele seria, bem, um pirralho (não, não me desce um garoto de 13/14 anos comandando bandidos cruéis e blá blá blá) que se acha muito esperto e que se tem em alta conta, mas que na verdade não passa de um moleque sendo o manda-chuva porque o plot said so. Triste, de verdade. A ideia geral de Prince of Thorns é maravilhosa, mas a execução não lhe faz justiça.

E conte quantas mulheres existem nessa história. Me lembro de apenas dessas: a rainha mãe (morta, provavelmente sofreu todo tipo de coisa antes de morrer), as garotas de fazenda (estupradas e mortas) e a guria que provavelmente vai ser um projeto de interesse romântico do Jorg, a Catherine/Catherina or something (Jorg meio que quase estrangula ela lá mais pro fim do livo) e a feiticeira (obviamente linda e/ou sexy, também acaba morta se me lembro bem). Acho que são só essas e bem, alguém além de mim vê algo de errado nisso?

E antes que alguém venha com mimimi a história se passa em um mundo medieval onde as mulheres eram tratadas como lixo mesmo mimimi porque eu sei que isso é verdade, e ao contrário de muita gente por aí acho meio desconexo querer retratar mulheres sendo iguais aos homens em histórias baseadas na Europa medieval, até porque as mulheres não eram tratadas bem nessa época e mudar isso meio que nega o que elas passaram para mim (mas é maravilhoso criar culturas diferentes onde mulheres são tratadas iguais aos homens e eu desesperadamente quero ver mais disso em livros de fantasia – mas a maioria dos autores, infelizmente, estão acomodados demais na Europa medieval e nas mulheres submissas para realmente fazerem algo), então o problema é não fazer nada na história que mostre que essa concepção (mulher = lixo) está errada. Esse “fazer algo na história” pode ser criar um personagem (de preferência uma mulher) que desafie essas normas ou ter um país com uma cultura diferente que valorize as mulheres do mesmo modo que valoriza os homens e mostrar como essa cultura de mulheres como seres inferiores é estúpida. Mas isso não acontece em 90% dos livros de fantasia ambientados em um mundo parecido com a Europa medieval porque os autores pensam que só porque a coisa era assim eles podem continuar escrevendo como se fosse certo ou normal. E não podem, me desculpem. É um saco – um saco! [sinta minha frustração] – ser mulher e ler fantasia apenas para ver a maior parte das mulheres serem tratadas como objetos sexuais e/ou seres inferiores sem que o autor faça o menor esforço para mostrar que esse tipo de visão e comportamento é errado. E olha que fantasia é meu gênero preferido, mas há momentos em que considero me mudar de vez para o paranormal/sobrenatural mesmo que a coisa por lá não seja a oitava maravilha do mundo, já que pelo menos é melhor do que na fantasia.

Então após essa Bíblia aqui está o porque de eu desprezar Prince of Thorns tanto de modo resumido: essa história contém praticamente tudo de ruim que um livro de fantasia é capaz de ter. Ou seja, violência apenas para chocar/substituir caracterização, personagens unidimensionais, um único personagem não branco que é basicamente uma trope, nenhum personagem LGBT+, mulheres sem importância alguma para a história, escrita fraca e um dos deux ex machina mais descarados que já tive a infelicidade de ler. Então é, Prince of Thorns é um dos piores livros que já tive o desprazer de ler.

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