Resenha: A Espada de Shannara, Terry Brooks

A Espada de Shannara
Shannara #01
Terry Brooks
Skoob
★☆☆☆☆

Há muito tempo atrás, as guerras de um anciente Mal arruinou o mundo e a humanidade foi forçada a competir com muitas outras raças – gnomos, trolls, anões e elfos. No pacífico vale de Shay o meio-elfo Shea Ohmsford sabe pouco de tais problemas, isso até o gigante proibido com poderes druidas estranhos, Allanon, lhe revelar que o supostamente morto Lorde Warlock está tramando para destruir o mundo em pequenas parcelas. A única arma capaz contra seu poder da escuridão é a Espada de Shannara, que pode ser usada apenas pelo verdadeiro herdeiro de Shannara. E Shea é o último dessa linhagem e nele repousa a esperança de todas as raças. Logo o Portador da Caveira, um pavoroso favorito do Mal, se dirige para o Vale para matar Shea. Para salvar o Vale da destruição, Shea foge, levando em seu encalço o Portador da Caveira.

Muita gente odeia clichés de fantasia, mas eu sou fã deles quando são bem construídos. Adoro profecias, dragões, elfos e até mesmo objetos perdidos que precisam ser encontrados ou destruídos; é meu tipo de fantasia favorita, e uma que está se tornando cada vez mais rara, já que há quem diga que esta é uma “fórmula” ultrapassada e agora toda fantasia deve ser como Crônicas de Gelo e Fogo. Ou seja, ai de quem ouse escrever sobre elfos novamente.

A Espada de Shannara despertou meu interesse exatamente por parecer ser uma fantasia que seguia um estilo mais antigo – descobri depois que o primeiro livro foi publicado em 1977 -, então eu estava esperando muito, mas muito mesmo, deessa série considerada um clássico da fantasia. A insistência de todos em dizer que Terry Brooks se inspirou em Tolkien me deixou um pouco desconfortável, mas comprei o livro mesmo assim. Afinal, elfos! Amém!

Comecei a ler e então descobri porque todos insistiam tanto em dizer que Brooks se influenciou em Tolkien – ele não se influenciou, ele copiou e copiou descaradamente.

Escapa da minha compreensão como alguém que tenha lido O Senhor dos Anéispossa desconsiderar as semelhanças entre as duas obras. Como não notar que Allanon é como Gandalf, Shea é como Frodo, Flick é como Sam, Balinor é como Aragorn e Boromir, Orl Fane é como Gollum, Hendel é como Gimli, Stenmin é como Língua de Cobra e Durin e Dayel são como Legolas? Como não notar que o conselho que ocorre em Culhaven é muito parecido com o que ocorre em Valfenda? Como não notar que o Salão dos Reis lembra demais Moria? Como não notar que toda a história de Tyrsis lembra demais uma mistura entre as histórias de Minas Tirith e Edoras? Como não notar que Brona é quase uma mistura entre Saruman e Sauron? E que isso faz o Conselho dos Druidas uma imitação do Conselho Branco?

Eu entendo se inspirar em O Senhor dos Anéis. Afinal, a obra de Tolkien meio que definiu a fantasia como a conhecemos hoje em dia. Mas há limites, e A Espada de Shannara cruzou todos eles.

Aliás, Brooks poderia ter imitado outra coisa além da história de Tolkien; poderia ter pego um pouco da qualidade da sua escrita. Se tal coisa tivesse acontecido, A Espada de Shannara teria se tornado uma leitura muito mais mais fácil. Com a de Brooks, foi quase impossível chegar na última página do livro. Sabe aquela regra primordial da escrita, o show, don’t tell? Pois fiquei com a impressão de que o autor a entendeu como tell, don’t show. Cenas inteiras são contadas para o leitor do modo mais corrido e sem graça possível, e eu até fiquei com uma leve impressão de que Brooks provavelmente odeia diálogos, já que eles só acontecem quando não há mais jeito algum de evitá-los. O caso é tão grave que eu poderia pular parágrafos inteiros de puro tell e ainda assim entender perfeitamente o que estava acontecendo.

Os personagens, além de lembrarem demais os de Tolkien, são mal caracterizados (a péssima escrita deve ter ajudado um pouco aqui) e apresentados de modo extremamente simples. E as mulheres… Bem, que mulheres? Só duas aparecem no livro inteiro, e uma é apenas mencionada por um dos personagens masculinos. E, é claro, ambas são apenas o interesse romântico de algum herói. Pra quê mulher com personalidade em livro de fantasia mesmo, hein?

Não me entendam mal. Sei bem que o próprio O Senhor dos Anéis não esbanja personagens femininas, mas as duas que se destacam – Éowyn e Galadriel – são incríveis. As de A Espada de Shannara são ocas, e servem apenas de plot device. E, bem, eu sou uma mulher. Ler esse livro onde homens fazem tudo e as mulheres servem apenas para ser o amorzinho final deles, para onde os heróis voltam depois de terem salvado o mundo foi um suplício.

Houve alguma originalidade sim. E isso que me irrita ainda mais. A Espada de Shannara poderia ter sido um livro incrível (se o autor desse um jeito na escrita dele primeiro), mas todo esse potencial foi perdido no momento em que ele decidiu seguir o plot de O Senhor dos Anéis tão de perto. As Grandes Guerras, a ideia de um mundo pós-apocalíptico com elfos, anões e gnomos é incrível. Mas o resto, o grosso da obra, é, na minha opinião, uma imitação barata da obra de Tolkien. E isso anulou todo esse início de originalidade pra mim.

Não costumo ser tão agressiva nas minhas resenhas, mas o fato de A Espada de Shannara ser considerado um livro clássico da fantasia sendo tão abertamente parecido com O Senhor dos Anéis me deixou chateada. Não continuarei essa série (meio que prefiro reler O Senhor dos Anéis mesmo, sabe), mas uma última observação que meio que não é sobre os livros de Brooks ou os de Tolkien: Christopher Paolini com certeza leu pelo menos A Espada de Shannara. Vejam o final de Herança e o de A Espada de Shannara e vão entender o que quero dizer.

 

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