Resenha: Tigana, Guy Gavriel Kay

Tigana – A Lâmina na Alma
Tigana #1
Guy Gavriel Kay
Skoob
★☆☆☆☆

Tigana é uma obra rara e encantadora onde mito e magia se tornam reais e entram nas nossas vidas. Esta é a história de uma nação oprimida que luta para ser livre depois de cair nas mãos de conquistadores implacáveis. É a história de um povo tão amaldiçoado pelas negras feitiçarias do rei Brandin que o próprio nome da sua bela terra não pode ser lembrado ou pronunciado. Mas anos após a devastação da sua capital, um pequeno grupo de sobreviventes, liderado pelo príncipe Alessan, inicia uma cruzada perigosa para destronar os reis despóticos que governam a Península da Palma, numa tentativa de recuperar um nome banido: Tigana. Num mundo ricamente detalhado, onde impera a violência das paixões, este épico sublime sobre um povo determinado em alcançar os seus sonhos mudou para sempre as fronteiras da fantasia.

Eu me sinto até culpada ao dar uma estrela a esse livro. Certo, certo, não é exatamente culpada, já que acho sim que Tigana mereça essa nota, mas, talvez, um tanto errada. Praticamente todo mundo adorou ler Tigana (é só dar uma olhada no número de resenhas positivas e comparar com o de negativas, já que essas, aliás, quase não existem) e, bem, eu odiei. Talvez a culpa seja, em parte, minha; estou numa maré de azar para livros esse ano e Tigana meio que era a grande aposta de 2014, uma tentativa de elevar a qualidade das minhas leituras. Não funcionou. Tigana piorou tudo, sendo bem sincera.

Meu problema com esse livro começou com os personagens. Faz um bom tempo que não discordo tanto com as resenhas de sites que sigo quando se trata de personagens complexos em livros de fantasia, principalmente porque, para muitos, essa é justamente uma das melhores coisas sobre Tigana. Mas para mim os personagens apresentados e construídos (hm) pelo autor não poderiam ser mais unidimensionais e previsíveis nem se tentassem. Catriana é a básica garota ruiva com um temperamento ruim a quem o autor tentou dar um pouco de profundidade e originalidade (falhou miseravelmente, devo dizer) ao acrescentar um pouco sobre seu passado à história. Alessan é o típico príncipe exilado lutando para recuperar seu lar perdido, Alberico é o já manjado vilão egoísta e sem escrúpulos e Dianora é possivelmente a personagem mais sem sal (ou lógica) de todo o livro. E o protagonista é basicamente uma casca. Os únicos que apresentaram alguma possibilidade de serem bons foram Tomasso e Brandin, e mesmo esses dois não funcionaram para mim. E, devo dizer também, Devin possui a motivação mais fraca que já vi. Entendo Alessan e Baerd serem tão obcecados com recuperar o nome de Tigana porque eles presenciaram a coisa toda, eles sentiram a perda da pátria deles na pele. Devin (e Catriana, de certo modo) não passou pelo que eles passaram, e nada irá me convencer (“isso é uma questão de se identificar com seu lar, de conexão com o lugar” não cola comigo no caso do Devin, me desculpem) de que a lâmina na alma dele é justificável.

Pois bem, meu problema continuou com o modo com que o sexo foi tratado no livro. Não foi pela quantidade (eu sempre me senti meio de escanteio, já que li As Crônicas de Gelo e Fogo e em nenhum momento me senti afetada de modo negativo – ou positivo – pelo sexo presente na série, então, sério, não foi pela quantidade mesmo), mas sim pelo modo. Nunca vi um jeito tão piegas e melodramático de descrever sexo e juro que nunca revirei tanto os olhos enquanto lia cenas desse tipo. Cheguei ao ponto de literalmente pular parágrafos para me salvar um pouco das descrições absurdas usadas pelo autor, e isso é algo que realmente abomino fazer. Mas foi necessário para manter minha sanidade.Em um debate vi certa vez alguém dizer que o sexo era descrito desse modo por causa do elemento latino na narrativa (para quem não sabe a Palma é inspirada na Itália) e isso me deixou com uma pulga atrás da orelha. Isso não é, afinal, o estereótipo de que latinos = sexo sendo perpetuado? Nós somos latinos, obviamente, então paremos um momento para refletir se isso é realmente tudo o que queremos que seja relacionado a nós em livros, filmes e outros meios de narração de história. Sério.

Outra coisa que me incomodou bastante foi o modo com que as mulheres foram representadas. Super apoio mulheres como seres sexuais e etc, etc, etc, mas os motivos para mulher na cena + homem na cena = sexo nesse livro me pareceram meio bizarras. (Pequeno spoiler!) Catriana tem sua primeira vez com um cara que ela mal conhecia dentro de uma espécie de armário para tentar impedi-lo de ouvir uma conversa (!!!!!), Dianora passa anos e anos sem matar o cara que arruinou sua vida porque ele é bom de cama (não, isso não é amor, minha gente) e praticamente todas as mulheres do livro são sexualizadas de algum modo. Eu não teria problema nenhum com isso se não fosse algo tão na cara feito para que os homens somente (é meio difícil ser uma garota e ler fantasia de vez em quando, já que boa parte dos autores parece se esquecer de que nós existimos). Não é a mulher ser sexual por ela mesma, é ela ser sexual porque os homens gostam e hashtag eu não estou aqui pra isso.Por último, o livro não tem clímax. Sim, eu sei que a obra original foi dividida em dois volumes aqui no Brasil, mas Tigana – A Lâmina na Alma continua sem clímax do mesmo jeito. Foi um erro da editora, obviamente, mas no momento em que um livro é publicado ele está sujeito a receber críticas relacionadas ao conteúdo que chega ao leitor. E o conteúdo que chegou até mim não tem nem rastro de clímax, infelizmente.

Em conclusão, sim eu odiei praticamente todos os aspectos de Tigana. Não vou, porém, chegar ao ponto de dizer que ninguém deve ler esse livro, já que muitas (e quando digo muitas realmente enfatizo o muitas) pessoas adoraram a história, então quem sabe você que está lendo essa resenha agora não goste também. Ou seja, é sempre uma boa ideia ler para ter sua própria opinião.

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